22 de janeiro de 2017

#Resenha de seriado: Desventuras em série

O único seriado que já resenhei no blog foi Faking It, em 2014. Apesar de já ter acompanhado (e acompanhar) alguns, tenho tantos outros posts para fazer que tudo o que gostaria de resenhar acaba não entrando na programação.

Assisti Desventuras em série no fim de semana passado e percebi que valia a pena re-organizar meu cronograma para resenhá-lo. Acho que quase todo mundo sabe que é inspirado nos livros de Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler. Os livros foram publicados no Brasil entre 1999 e 2006. Um filme foi produzido em 2004, mas unia apenas as histórias dos três primeiros livros.


Título original: A series of unfortunate events
Diretor: Barry Sonnenfeld
Duração: entre 42 e 64 minutos
Ano: 2017
★★★★★ 

Começo a resenha, de fato, dizendo que eu adoro bastante o filme. Quando foi anunciado que a Netflix planejava o seriado, confesso que não gostei. E continuei não gostando até depois do Neil Patrick Harris ser divulgado como Conde Olaf. Não sou fã de How I Met Yout Mother e conheço muito pouco do trabalho do Neil. E, claro, eu achava que não tinham como construir o personagem do Olaf de outra maneira senão daquela caricata e exagerada. 

Preciso dizer que o Conde Olaf é a segunda melhor coisa do seriado. Não é engraçadão, exagerado e sem sentido. Esse Olaf é muito mais próximo do personagem original: cruel, sombrio e ganancioso. Existem cenas em que é engraçado, para dar aquele alívio cômico, porque, afinal, a narrativa como um todo mescla drama com descontração - não é para ser algo maçante, senão espantaria o público. De modo que o seriado, de forma geral, conseguiu ser bastante fiel aos livros - à sua proposta, à sua condução dos fatos e à sua atmosfera. Definitivamente, o que os órfãos Baudelaire vivem nos oito episódios são desventuras em série. 

Já que mencionei os órfãos, os três também estão muito mais autênticos, com muito mais características originais. Violet é a garota engenhosa e fiquei muito feliz por vê-la amarrar os cabelos com frequência. Klaus é muito mais o rato de biblioteca que sempre imaginei que deveria ter sido no filme. E Sunny tem papel mais presente em muitas cenas, apesar de ser um bebê. Os três personagens foram muito mais cavados, muito mais revelados nesta adaptação. Fica evidente cada uma de suas características, manias e lembranças do passado. Funcionou, também, o fato de terem escalado atores que condizem com as idades dos personagens. Algo que me encantou foram as cenas em que Klaus ou Violet citam autores, filósofos e estudiosos, finalmente dando a entender o amor que sentem por bibliotecas e pelo estudo. No filme, achei que isso ficou completamente de escanteio. 

A primeira melhor coisa do seriado é o próprio Lemony Snicket, que participa e interfere nas cenas. No filme, ele parece meramente o relator da história dos Baudelaire, mas no seriado percebemos que ele tem papel ativo na narrativa: ele não somente conhece as crianças, como também todo o passado delas e de seus pais. Eu não me recordo se, nos livros, ele tem esse papel de narrador-personagem (pois faz pelo menos nove anos que os li, sendo que parei no quinto), mas achei essa inserção simplesmente genial e muito cativante. É o Lemony que, muitas vezes, dá o tom das próximas cenas, ora sendo engraçado, ora oferecendo informações valiosas, ora enganando o espectador.

Eu compreendo que as mídias são diferentes. Não dá para contar os 13 livros em duas horas. E, desse modo, o seriado cumpre incrivelmente essa função. A cada dois episódios, ele se dedica a narrar um livro - até então, temos uma temporada completa, com oito episódios, portanto, quatro livros já foram narrados. Como os três primeiros livros já são bastante conhecidos, por causa do filme, os episódios sobre eles não ofereceram muita informação nova. O ponto positivo, entretanto, são as informações não-óbvias, as que não compõem a storyline principal. A atenção é primordial, pois os episódios deixam muitas "pontas soltas" para serem complementadas em cenas posteriores. 

O desenvolvimento da narrativa, apesar de arrastada no início, começa a fazer sentido quando todas as informações, de todos os plots, se convergem. Ainda assim, o último episódio da primeira temporada não termina com "cara" de final - feliz, seguro ou bom. Termina na medida certa, fazendo com que queiramos saber muito mais e continuar a acompanhar as infelicidades dos órfãos e a ganância do Conde Olaf. 

Termino dizendo que me surpreendi bastante com o tanto que adorei o seriado. A abertura já é algo que nos ganha logo de início (e fica na cabeça por algum tempo, hahaha), mas os personagens são, sem dúvida alguma, a riqueza da produção. Cada ator conseguiu incorporar seu personagem de forma crível, graciosa e apaixonante. 

É melhor vocês (não) olharem! ;)






Love, Nina :)

15 de janeiro de 2017

#Resenha de filme: Sing Street

Esse filme foi uma indicação da Cecília, do Blog Refúgio. Por tratar de música (o próprio título já sugere), deixei na minha lista e, alguns dias depois, assisti muito despretensiosamente. E foi uma ótima surpresa :)


Título: Sing Street
Diretor: John Carney
Duração: 1 hora e 46 minutos
Ano: 2016
★★★★★ +

Vocês têm que entender que qualquer narrativa que traga a música como proposta já me ganha totalmente. Não à toa que Once (Apenas uma vez) e Begin Again (Mesmo se nada der certo) se tornaram filmes adorados por mim - tanto no quesito da storyline quanto da trilha sonora. Tenho uma "métrica" para saber quão bom um filme sobre música é: se sinto vontade de ouvir a trilha sonora. Até hoje ouço as trilhas de Once e Begin Again. E, com certeza, a de Sing Street entrou para a minha seleção de playlists preferidas. 

Sing Street pode parecer um filme adolescente, porque é protagonizado por adolescentes, mas vai muito além disso. O que mais adoro em tramas adolescentes (livros e filmes) é que são subestimadas e, de repente, te surpreendem infinitamente. É por isso que fico muito decepcionada com pessoas que dizem que YA's são bobos e não-profissionais. O filme não conversa apenas com o universo adolescente, mas oferece questões universais. 

A família de Conor, o protagonista, está falindo a cada dia financeira e afetivamente. Seus pais brigam a todo momento, à princípio por causa de dinheiro. É assim que ele descobre que eles não têm mais condições de mantê-lo na escola em que está e, desse modo, começará a frequentar a antiga escola de seu pai, que é muito regrada e apenas para garotos. Nesse novo lugar, Conor é o garoto esquisito que não se encaixa e rapidamente começa a sofrer bullying. Dias depois, ele se junta a um colega também excluído e, juntos, planejam começar uma banda com o único intuito de agradar uma garota. A garota é Raphina, que de diz modelo e que tem um namorado. 

Mas a música começa a acontecer de verdade, apesar de Raphina. Conor faz amizade com outros garotos e, juntos, produzem letras, melodias e clipes. A banda é totalmente amadora - e esse é o intuito. É isso que chama atenção na trama, também. São adolescentes, na década de 80, ouvindo bandas como A-ha, Duran Duran e The Cure, tentando fazer com que suas referências se tornem algo autêntico. 

As bandas reais, que aparecem em clipes em TV's antigas, fazem parte de forma ativa do filme; não estão ali para cobrir espaços vazios, pelo contrário: os garotos da banda se "transformam" nos integrantes, copiando seus visuais. Há maquiagens, cabelos arrepiados, cabelos descoloridos, chapéus, roupas pretas. Nesse aspecto, o filme tem um super ponto positivo, que te faz querer continuar a vê-lo para saber quais são as próximas referências musicais. 

Mas Sing Street não é apenas sobre música ou como conquistar uma garota. É sobre família, sonhos e arte. E é a partir da música que todas as outras questões se inserem naturalmente na storyline: a repressão versus a liberdade, a mentira versus a verdade e a decepção versus o amor. Conor tem muito o que descobrir sobre si mesmo e seu irmão. Raphina tem muito o que descobrir sobre confiança e liberdade. 

Falando especificamente de Raphina, embora sua inserção seja clichê, o desenvolvimento do seu relacionamento com Conor é convincente. Gostei de entender que, a certo ponto, ela é irrelevante para que Conor fizesse música. É claro que o processo criativo dele é voltado para ela, mas não se prende ao que ela tem a dizer de sua música. De repente, o que era apenas uma distração se torna uma salvação. É a música que mantém Conor na escola e faz procurar o irmão para referências musicais. É interessante notar essa essencialidade que as canções têm em sua vida, pois ele acredita no que faz. E isso, na narrativa, é muito importante. Isso segue o sentido de sonhar, buscar mudanças e se desprender das dependências afetivas. 

Como eu disse acima, Sing Street não é sobre adolescentes - o filme se relaciona muito mais com o nosso lado esperançoso e libertário, o lado universal de quem precisa se agarrar a alguma crença para ir adiante. O filme é encantador e surpreendente, pois consegue fazer com o que espectador se identifique e cante muito junto. É um filme que renova a gente, acima de tudo.

Você pode ouvir a trilha sonora completa (inclusive as músicas compostas para a banda fictícia) AQUI. Spoiler: o Adam Levine tem uma música na trilha e fico me perguntando qual é o filme do qual ele participe que eu não vou amar.



Love, Nina :)

8 de janeiro de 2017

#LeiaMulheres 2017


Em 2016, eu conheci e participei do projeto Leia MulheresEu cresci lendo mulheres. Possivelmente, hoje, 80% da minha estante é composta por mulheres. Não significa que eu veja um livro e o segregue pelo gênero autoral. Eu não escolhi ler, majoritariamente, mulheres. Isso foi acontecendo ao longo dos anos. Sim, eu leio homens e acho que eles são incríveis no que escrevem. 

Mas uma breve história verídica: a J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, foi orientada por seu editor a não mencionar seu primeiro nome, pois "garotos não leem mulheres".

Não é bobagem. Acontece e muito. Toda hora uma mulher escritora é silenciada - seja na supressão de seu nome verdadeiro, seja em seu conteúdo, seja em seu gênero narrativo, seja em festivais literários. 

Neste ano, eu fiz uma pesquisa usando esse post das Valkirias e esse, d'AzMina para conseguir chegar a uma lista de autoras para a meta. Depois de escrita, percebi que o "mote" desse ano é ler mulheres que nunca tinha ouvido falar. Apesar de conhecer três delas, a maioria eu nem ao menos sabia da existência! Outra coisa que percebi esse ano é que a lista está mais diversificada. Há mais mulheres brasileiras, mas também uma africana e uma indiana <3

Não conheço a Maria Giulia Pinheiro, nem seu trabalho. Nunca ouvi ninguém mencioná-la. E foi justamente por isso que ela está na minha meta. Alteridade é um livro sobre uma mulher. É sobre o estupro e as várias formas de violência feminina. Se a temática já não tivesse me convencido de cara a lê-lo, tem um bônus: é um poema-conto-dramático. Fiquei muito curiosa para ler uma história permeada por mais de um gênero narrativo. Achei a proposta incrível e única. 

Conheci a Martha Batalha muito recentemente, a partir da página da Companhia das Letras, por causa das postagens sobre este mesmo livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão. A capa dele me remeteu a um gênero que não é o proposto, mas ao ler a sinopse entendi que a narrativa é tão real e próxima, que o coloquei imediatamente na minha lista e, posteriormente, o adicionei nesta meta. O protagonismo que a autora pretende dar às mulheres "belas, recatadas e do lar" do século XX é muito necessário e convincente

Lubi Prates é outra escritora que eu não conhecia. No entanto, quando soube que Triz é composto por poemas me ganhou na hora. A temáticas também me atraíram bastante: busca pelo seu lugar (social e de fala), distâncias, deslocamentos, amor e desamor. Parecem versos fortes e suaves ao mesmo tempo, algo que me encanta muito na poesia. 

A Maria Luíza Mendes Furia é mais uma autora desconhecida por mim. O título Vênus em Escorpião me chamou atenção de cara (e eu achei muita graça), porque, segundo meu mapa astral confirmado por um amigo, meu Vênus é em Escorpião *insira aqui muitos risos* *insira aqui muita sofrência, também*
Outra obra de poesias, então, me convenceu de vez a lê-lo. Temáticas como a natureza, a saudade e o erotismo compõem os poemas. 

Eu não acompanho as carreiras de mulheres da música pop, então, nunca soube que Warsan Shire escreveu a maioria dos textos do álbum "Lemonade", da Beyoncé. O que me convenceu a ler Teaching my mother how to give birth foi o fato de não existir tradução, existe somente em inglês. Faz pouco tempo que tenho me aventurado a ler poesia em inglês (tudo culpa de uma escritora indiana-africana sensacional chamada Yrsa Daley-Ward; recomendo fortemente Bone), mas quero demais continuar com isso em 2017. A literatura de Warsan é permeada de suas experiências com a feminicidade, a negritude, o deslocamento e o pertencimento diante da realidade da diáspora africana.

Talvez você já deve ter visto alguns poemas da Rupi Kaur no Instagram. Algumas páginas no Facebook também têm compartilhado fotos do livro Milk and honey, apesar de não dar créditos à autora (e nem ao menos saber que ela é uma mulher!!!!). Eu a conheci há vários meses, totalmente ao acaso, enquanto fazia algumas pesquisas pela Amazon. Desde então, as poesias dela têm me dado várias perspectivas e muita coragem para continuar vivendo e amando a vida. Ela se expressa a partir de versos reduzidos, mas que nos tocam com muito delicadeza. Escreve sobre a vida, o amor, o desamor, desilusões, felicidade, solidão. A Rupi está nesta lista, pois quero, finalmente, ler a obra na íntegra. A Planeta de Livros Brasil vai lançá-lo ainda este mês (pensa numa pessoa muito feliz!!!).

Não dá para saber quem é a Una (fui atrás de biografia e fotos, mas cadê?), mas em Desconstruindo Una, a realidade dela é exibida ao leitor em forma de quadrinhos. Durante boa parte do ano passado, essa HQ esteve aparecendo para mim em promoções, mas, devido ao preço meio salgado, não comprei. A temática, que expõe o silenciamento das vozes femininas na sociedade, sempre me atraiu na história e é justamente por isso que a obra está aqui. 

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Que mulheres escritoras vocês querer ler esse ano? Vamos trocar dicas!

Love, Nina :)

31 de dezembro de 2016

#Pena & Tinta: adeus ano velho

Você precisa saber algo: 2016 me deu algumas lições incríveis e gratificantes.

Aprendi que, às vezes, é preciso estar sozinha, porque existem caminhadas que entenderemos apenas assim: confiando mais em nós, sem dar ouvidos a terceiros (por mais estimáveis e empáticas essas pessoas possam ser). Em 2016, eu tive depressão. Procurei ajuda profissional, mas não foi nada como esperei - foi ruim. Só fiz duas sessões e não apareci mais. Em 2016, aprendi a aceitar as palavras dos outros. Foi assim que aprendi gratidão e resignificação. A partir de maio, consegui estruturar melhor minha mente. Dizer a ela que o que quer que tivesse acontecido em 2015 não era mais quem eu queria ser. Porque eu estava cansada de não sentir nada na maior parte do tempo e de sentir muito em momentos específicos. Em 2016, eu aprendi a controlar a minha mente. E a controlar quem eu não queria mais ser. 

Quem eu ainda queria ser não queria mais aceitar pessoas tóxicas, oportunistas e duas caras. Nessa época, eu ainda estava muito frágil e estava enfrentando um processo de reencontro interno muito delicado. Eu não sabia se queria levantar da cama e dar de cara com os fracassos do dia. Mas resignificar me ajudou muito - mudou muito a me reencontrar, aliás. 

Todos os lugares e pessoas e lembranças ruins, que me causavam ansiedade e ataques de pânico, foram modificados. Eu tive que dizer a mim mesma para parar de ter medo desses lugares e pessoas e lembranças. Porque o medo não ia me privar de essas coisas existirem ao meu redor, em meu convívio e em minha rotina. Foi bem na época que eu comecei uma atividade diária nova. Em 2016, eu aprendi a amar a meditação. Faz quase seis meses e foi uma das melhores coisas que descobri na minha vida. A meditação me ajudou, em definitivo, a controlar a minha mente - e, em conjunto, a minha ansiedade e meu medo. São somente dez minutos à noite, antes de dormir. Isso mudou a minha vida. Finalmente, aquela pessoa de quem estava cansada de ser começou a ir embora. É claro que ainda é um processo. A depressão e, em especial, a ansiedade ainda estão aqui, ainda existem. Mas é como se, de onde estou agora, estivesse segurando um lado de uma corda muito, muito, muito comprida, que termina onde eu nem me lembro mais. 

Em 2016, eu esqueci como era lidar com o choro até adormecer. Mas também tive decepções com pessoas que admirava. Comecei a ficar triste num lugar que ainda amo. Percebi que ninguém é confiável tanto assim. Percebi que a maioria te pergunta as coisas porque quer mesmo sabê-las. Algumas pessoas já sabem as respostas e estão somente brincando com a sua cara. Outras, só querem especular a sua vida. Outras ainda só querem rir da sua desgraça ou escrachar sua felicidade. Dessa forma, aprendi a parar de confiar tanto nos outros e acreditar mais em mim mesma. 

Eu tive que encontrar uma maneira de lembrar quem eu era, o meu eu verdadeiro. Tive que lembrar o quanto escrever é quem sou, o quanto preciso continuar no mundo, o quanto outras pessoas dependem das tarefas que faço, mesmo que haja ingratidão. Aprendi que vou desagradar alguns, que vão tentar me derrubar e que vão dar a mínima para mim. Mas, apesar disso, eu vou continuar sendo eu. Vou continuar navegando para longe, bem longe, dessa gente. Porque eu não dependo de quem me destrata, quem me rebaixa, quem acha que pode brincar comigo e ir embora. 

Em 2016, eu aprendi que as coisas ruins podem melhorar. Que vamos voltar ao mesmo mar alguma hora. Que vamos reencontrar aquele pedacinho de nós mesmas que ficou para trás. Porque, de pedacinho a pedacinho, a gente se reconstrói. E se gosta cada cada vez mais. 

Em 2016, eu descobri uma paz espiritual incrível. Aprendi sobre perdoar o outro e perdoar a mim mesma. Aprendi sobre amor-próprio. Aprendi que está tudo bem não estar bem o tempo todo. Que somos frágeis, mas que nossa força só está esperando o momento certo para se mostrar. Aprendi que os lugares, as pessoas e os momentos vão embora. E está tudo bem. Porque não precisam ficar o tempo inteiro. Porque bom mesmo é dizer adeus para aquilo que não funciona mais. 

Então, adeus, 2016.  E obrigada por ter deixado cicatrizes que não doem mais. 


Imagem: arquivo pessoal.
Sim, eu fiz minha primeira tatuagem.
Para que eu continue lembrando que sou a minha própria força.

"É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias, 
basta se lembrar de acender a luz".
~ Alvo Dumbledore

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Esse texto faz parte do projeto Pena & Tinta 
Pena & Tinta é um projeto de escrita criativa com o objetivo de criar textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) mensalmente em cima de temas predeterminados. 
Você tem um blog e quer fazer parte do projeto? Legal, vem que a gente te espera AQUI.

Um dos temas de Dezembro era escrever um texto sincero de formato livre 
sobre o que aconteceu em 2016.

Love, Nina :)

29 de dezembro de 2016

#Resenha de livro: Mrs. Dalloway

A minha última leitura foi pra lá de sensacional, como tudo o que já li da Virginia Woolf (tá falando a resenha de Um teto todo seu, pois é; vai ficar para 2017). 

Como disse aqui, Mrs. Dalloway faz parte do projeto #LeiaMulheres. Não consegui concluir a meta, mas me desafiei a terminar este livro, que havia iniciado em abril. E que surpresa! Se, em abril, a leitura estava desconexa - pois não havia lido nada da Virginia, até então -, agora, fluiu com muito amor e muita angústia. A literatura de Woolf provou mais uma vez que pode me conquistar cada vez mais ❤ 



Título original: Mrs. Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Editora: L&PM
Páginas: 221
Ano: 1925 (original) | 2012 (BR)
★★★★★ +

De narrativa muito mais linear que As Ondas, Mrs. Dalloway é envolvente, primeiro devido ao ambiente de classe média londrina; segundo, devido aos fluxos de consciência. Para alguns, esses fluxos podem incomodar, mas, para mim, que gosto muito, apenas serviu para que eu me adentrasse cada vez mais na história. A leitura é rápida, profunda, e narra um dia na vida de Clarissa Dalloway. Um dia importante, além de tudo. É de manhã quando ela sai para comprar flores para sua festa e, a partir daí, conhecemos não apenas ela, mas seus antigos amigos e boa parte da sociedade da época. Uma época em que casamento não era sinônimo de amor, que roupas extravagantes eram importantes e que transtornos mentais eram tabus e tratados quase que com escárnio. 

Mesmo escrito em terceira pessoa, a dimensão de cada personagem é muito bem apresentada e desenvolvida ao leitor. Dificilmente eu "entro" em histórias escritas em terceira pessoa, mas não tive em momento algum problemas com isso em Mrs. Dalloway. Virginia consegue, com cada palavra, cada sentimento, nos convencer a sentir cada frase. A capacidade da autora de nos tocar, mesmo escrevendo sobre coisas banais, é sensacional. Eu, que amo a literatura introspectiva, agradeço mais uma vez o mergulho em mais uma obra dela. O saldo é sempre positivo. E, por incrível que pareça, não me sinto triste durante a leitura, de modo algum.
Morte era desafio. A morte era uma tentativa de comunicar, a pessoa sentindo a impossibilidade de alcançar o centro que, misticamente, lhe escapava; a proximidade se desfazia; o arrebatamento se desvanecia; estava-se só. Havia um aconchego na morte.
p. 209
Alguns temas são pesados, como o alarde de Septimus em se suicidar, mas a banalidade está em todas as partes. Virginia descreve arrogância, soberba e esnobismo através de Clarissa, que está numa posição social privilegiada. Todas as personagens, mesmo as mais arrogantes ou frias, nos motivam a descobrir mais e mais coisas sobre elas. Além de Septimus, há Peter Walsh, alguém que compete bastante em termos de cenas com Clarissa. Só posso descrever Peter como um obcecado por Clarissa, pois, mesmo que esteja de volta à cidade para tocar a vida, não consegue se desvincilhar de seu passado com ela. Esses arroubos de paixões por parte dele tinham tudo para serem irritantes, mas, na verdade, é algo fascinante - mostra muito de sua alma vazia, incapaz de se ater ao presente. Uma antiga amiga da protagonista também é bastante citada: Sally Saton. 

Sally, apesar de não ganhar tanto destaque, é muito importante para que o leitor descubra quem Clarissa é. Apesar de estar casada e ter uma filha, Clarissa, em momento algum, revela sentimentos românticos a seu marido, Richard. Ao invés de falar de amor sobre ele, fala sobre Sally. A homossexualidade, aqui, é bastante presente. Ela diz que sente por Sally "um sentimento do tipo dos homens". Isso me incomodou, porque eu ficava esperando que também dissesse sobre amor com o marido. No fim, comecei a me sentir mal por ela, por ter se casado com alguém que não amava quando, muito claramente, poderia ter sido feliz com outra pessoa, com alguém por quem era apaixonada. Um sentimento equivalente, o amor por alguém de mesmo sexo, é pincelado em Septimus em relação ao seu amigo falecido Evans. É instintivo, aliás, dizer que os pensamentos suicidas de Septimus afloraram devido à morte do amigo. Foi inevitável, em muitos momentos - em especial sobre a homossexualidade e o suicídio -, pensar que a narrativa é uma auto-biografia permeada de ficção.

Não tenho gratidão e amor suficientes para estimar esta leitura. Fico, na verdade, brava comigo mesma por ter adiado a finalização deste livro. Ele abraça você de um modo leve e angustiado ao mesmo tempo. A sociedade e boa parte das personagens são frias e distantes, mas foi inevitável sentir amor, compaixão e expectativa por eles. Mrs. Dalloway refletiu muito de mim mesma, dos meus pensamentos e dos meus anseios. O final tem de tudo para deixar o leitor irritado, mas o que senti, na verdade, foi um enorme amor. Foi impossível não sorrir com aquele final, sinceramente. Um dos finais que vão ficar para sempre no coração ❤  



Love, Nina :)

27 de dezembro de 2016

#Retrospectiva 2016

Ano passado eu também fiz uma retrospectiva. Anteriormente, estava pensando em fazer um TOP 5 com as melhores leituras do ano, mas aí percebi que fiz muito mais do que cinco e não daria certo haha. Como a retrospectiva engloba categorias diversas, achei muito mais diversificado e justo fazê-la, com algumas alterações. 



Melhor livro nacional:

Pequenas epifanias, de Caio Fernando Abreu

Se tem algo que 2016 me proporcionou foi me aproximar e amar a literatura de Caio F. Até então, apenas lia trechos avulsos pela internet afora, mas quando peguei Pequenas Epifanias, percebi que o autor é muito mais do que um romântico incurável. Suas palavras me lembraram eu mesma muitas vezes e, por isso, senti uma enorme proximidade com sua mente.
Este foi o livro, também, que me fez recomeçar a ler bastantes crônicas e relembrar do quanto eu as adoro.
 Resenha: AQUI 



Melhor livro infanto-juvenil:
A princesa e a costureira, de Janaína Leslão

Esse ano eu li muitos livros com temática LGBT e este é um dos queridinhos, pois é um conto de fadas voltado ao público infanto-juvenil, mas que dialoga com qualquer pessoa, independentemente da idade/sexualidade etc. Além das ilustrações serem l-i-n-d-a-s, a "moral" da história é graciosa, humana e representativa. 
A representatividade importa. Você não precisa concordar, gostar ou aprovar. O amor vai continuar existindo :)
 Resenha: AQUI 



Melhor livro Young Adult:
Por lugares incríveis, de Jennifer Niven

Eu falei desse livro m-u-i-t-a-s vezes ao longo do ano no blog, mas não consegui fazer resenha dele, pois, às vezes, quando amo algo falar sobre esse algo é muito complicado e nunca acho que estou falando tudo o que senti ao longo da leitura.
Por lugares incríveis se tornou, na verdade, o meu livro YA preferido da vida inteira. A sensibilidade, a sinceridade, a coragem e a verossimilhança são admiráveis e sensacionais. A storyline é incrível, apaixonante e inspiradora. Falar sobre transtornos mentais é muito difícil e o modo como Jennifer escreveu essa história é algo que mal tenho amor e gratidão suficientes para agradecer. 
Esse livro veio numa época em que eu estava passando por meses horríveis, de profundo vazio, e ele salvou a minha vida - de verdade, literalmente. A gratidão é infinita e de coração. 


Melhor livro de fantasia:
O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman

Este foi o primeiro (e, até agora, único) livro que li do Gaiman, mas me fez sentir tantas coisas sensacionais que achei que já tivesse perdido e se tornou um dos meus queridinhos do ano. O modo como ele trabalha a narrativa de modo a convencer o leitor sobre mentiras vs. verdades e imaginação vs. realidade é genial. É uma daquelas histórias frenéticas de sentimentos contraditórios e que nos faz ler, ler, ler até esquecer a noção do tempo. 
 Resenha: AQUI   



Melhor livro LGBT:
Volto quando puder, de Isa Prospero e Márcia Oliveira
O que me conquistou neste livro foram os fatos de ser nacional e de a narrativa ter me surpreendido, pelo fato (spoiler alert!) do plot da sexualidade não estar diretamente ligada ao protagonista. O ensinamento é lindo, uma espécie de reeducação familiar e aceitação. É algo muito maduro e sensível. Há "tapas com luvas de pelica" em muitos quotes, coisa que simplesmente adorei. O crescimento da história e das personagens é algo único, cativante e humano.

Mais uma vez: A representatividade importa. Você não precisa concordar, gostar ou aprovar. O amor vai continuar existindo :)


Melhor livro "auto-biográfico":
A redoma de vidro, de Sylvia Plath

Este romance, na verdade, é tido como "semi-biográfico", uma vez que o nome da protagonista não é Sylvia e a narrativa não é, exatamente, a rotina da autora. No entanto, depois de um tempo, não conseguia mais desassociar a Esther da Sylvia. A Esther era a Sylvia, na minha cabeça. 
Novamente, falar sobre problemas psicológicos é algo difícil (e raro, em especial, se levarmos em conta a época da primeira publicação: 1963), mas a lucidez e a articularidade de Sylvia neste romance é algo que ora angustia e ora conforta. Assuntos psicológicos sempre me interessaram e, por causa dessa leitura, comecei a procurar bastantes referências históricas sobre tratamentos da depressão e outros transtornos. 
 Resenha: AQUI 


O livro mais surpreendente:
As ondas, de Virginia Woolf

Antes de eu começar a lê-lo, a Ruh tinha me falado que esse era o livro mais complicado da autora e que não me recomendava começar a explorar a literatura dela por este título. Mas lá fui eu, porque eu queria me surpreender. E aconteceu. 
A narrativa é pacata, quase não há atos concretas nela, pois é contada em solilóquios (monólogos internos). A dificuldade é muita, mas, na época em que o li, estava precisando muito de algo que mergulhasse a minha mente em outra dimensão, em algo calmo e introspectivo, que me fizesse desacelerar. 
Este livro se tornou, com certeza, um dos meus preferidos do ano e da vida. Uma leitura marcante.
 Resenha: AQUI 


Melhor filme:
Melancolia, de Lars von Trier, 2011

A fotografia me conquistou logo nos primeiros minutos. Eu não sabia muito sobre a narrativa, por isso o filme me surpreendeu bastante. Além disso, as "epifanias" que acontecem no meio dele são incríveis. Pode parecer um simples filme surrealista, mas é muito mais do que isso: fala muito sobre a mente humana e transtornos psicológicos (depressão e ansiedade). Durante dias eu só conseguia falar e pensar sobre astronomia (estrelas e planetas), o que me rendeu ótimos insigths para meu novo romance.






Obviamente, capa não-oficial - tá faltando um S,
isso mesmo. Foi antes de eu mudar o título haha
Conquista do ano:
Voltar a escrever meu novo romance, Rotas de fuga

No meio do 2015, eu escrevi algo (nunca publicado) que, tempos depois, percebi que poderia se tornar um romance. Iniciei a história, muito pacata e com muita dificuldade, pois, apesar de ter a espinha dorsal, não tinha conseguido construir os arcos das personagens nem elaborar os plots que se entrelaçam e se desenvolvem. 
Mais ou menos um ano depois, eu estava de volta à essa narrativa. Percebi que ter deixado o texto "descansar" foi algo ótimo, que me permitiu pensar melhor e reconstruir o que desejava para as personagens e para a própria história. 
Até agora, o romance tem ficado muito melhor do que havia previsto e tem me dado um imenso orgulho. Pretendo finalizá-lo até o final de janeiro, pois quero inscrevê-lo no Prêmio Sesc de Literatura. 
Um imenso agradecimento à Cecília, do Blog Refúgio, que é a minha beta-reader oficial e sensacional

Parte da sinopse (ainda em construção):
Procuramos saídas o tempo inteiro. Então, fugimos. Deixamos para trás dores e vivências, assim como alegrias e saudade. Às vezes fugimos porque estamos com medo; outras, porque o sofrimento da permanência nos fere muito mais do que abandonar pessoas e quem um dia fomos. Às vezes fugimos para nos reconstruir; outras, para fazer desaparecer o inesquecível. (...)  


Melhores músicas:
I. Dear Wormwood, The Oh Hellos
II. (How it's going to) End, Marble Sounds
III. Dust to Dust, The Civil Wars


Descobri o The Oh Hellos em janeiro deste ano e, por muitos meses, uma canção em especial da banda me acompanhou dia e noite: Dear Wormwood. Tal qual Last Hope, do Paramore, esta se tornou uma espécie de hino para um momento muito ruim da minha vida, que me permitiu focar em algo que não fosse a vontade de morrer, o constante medo e a ansiedade. A música me deu uma consciência plena de que algo estava muito errado em mim e um verso dela me fez encontrar equilíbrio entre quem eu não queria mais ser e quem eu ainda queria ser: 

I know who I am now
And all that you've made of me
I know who you are now
And I name you my enemy

Conheci o Marble Sounds em 2010, com The time to sleep, mas no início deste ano eles lançaram um novo álbum e a canção (How It's Going to) End me ganhou nos primeiros segundos e, desde então, ouço-a muito. Tiveram meses que a única coisa que ouvi foi ela. Algo que amo absurdamente nesta banda é a sonoridade calma e profunda, que chega na alma da gente de um modo sensacional. Além da melodia, a letra significa muito para mim, de uma forma quase inseparável. 

You took a step 
Without looking back 
But knowing too well 
How it’s going to end 
You’ve reached the point 
You can’t pretend 

Conheço o The Civil Wars (terá uma playlist sobre eles em breve, prometo!) desde 2012, por causa da trilha sonora do primeiro filme de Jogos Vorazes. Ouvia-os muito esporadicamente, mas no último mês voltei a ouvir Dust to dust compulsivamente. Não sei mais começar o meu dia sem esta música, pois a melodia dela me traz t-a-n-t-a calma e paz, que só tenho muita gratidão pela existência dela! 

You've held your head up
You've fought the fight
You bear the scars
You've done your time

Melhor(es) texto(s) publicados aqui:
Rimas em saudades perenes, no mês de janeiro
Não podemos (nos) proteger para sempre, no mês de agosto

Durante o ano inteiro, eu só publiquei dois textos. Parece horrível, né? Mas, pra falar a verdade, eu estou feliz com isso. Porque essa parada com as palavras significou muito para mim. Foi - e ainda é - um processo para mim dominar melhor meus sentimentos e transformá-los em palavras necessárias. Ao longo da existência do blog, acho que escrevi muito sobre qualquer coisa e, este ano, percebi que escrevi apenas quando sabia que era verdadeiro, quando tinha que ser, realmente. A escrita ainda é a minha vida, é tudo o que realmente sou. E aprendemos sobre nós mesmos o tempo inteiro. Aprender é um processo, assim como a cura e a harmonia. De modo que esses dois únicos textos representaram muito bem esses três pontos sobre mim: o eu, a cura e a harmonia. 
Para ler/reler:


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Obrigada pela companhia durante 2016!
Que venham outras leituras e novas histórias inesquecíveis! 

Love, Nina :)

25 de dezembro de 2016

#Resenha de livro: Antes do baile verde

No começo do ano, eu aderi ao projeto #LeiaMulheres e criei uma lista com autoras que gostaria de ler em 2016. Se fracassei nessa meta? Eu não vejo assim. Não, eu não consegui completá-la, mas, ainda assim, me sinto orgulhosa de, pelo menos, ter espalhado o projeto internet afora. 

Neste dezembro, eu me desafiei a ler dois títulos da lista: Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) e Mrs. Dalloway (Virginia Woolf). Este segundo, tinha começado em abril, no entanto, nunca o terminei. Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozi Adichie), que está na lista, eu já li no ano passado, mas a resenha acabou não saindo por de: esquecimento.

Título: Antes do baile verde
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 205
Ano: 1970 | 2009
★★★★★ +


Antes do baile verde, na verdade, foi uma releitura. Li-o no ensino médio, há uns oito anos, mas decidi relê-lo, porque sentia certa saudade desses contos. São 18, cada um com uma temática. Apesar disso, há uma marca característica da autora, que é o fluxo de consciência. Em As meninas, também romance de Lygia, esses fluxos são intensificados, mas nestes contos é suave. As histórias são rápidas de serem lidas, têm entre 4 a 6 páginas. 

Para quem não está acostumado com a literatura da Lygia, acho que o entendimento das narrativas podem ser um pouco complicadas, porque são tão subjetivas e entrecortadas, muitas vezes eu terminava um conto sem ter entendido o seu sentido. Depois de um tempo, comecei a perceber que, mais do que entender, a proposta desses contos é fazer o leitor sentir - mesmo que seja confusão. O incrível das palavras da autora, tal qual Clarice e Virginia, é o sentimento. As frases parecem truncadas, desconexas e mesmo inacabadas, mas, ainda assim, nos faz sentir. 

Cada conto tem personagens diversas, sempre envoltas em conversas. Os diálogos são abundantes, algo que, a certo tempo, começou a me incomodar, pois gosto muito de descrições e introspecções. Mesmo assim, são precisos e enriquecedores. A partir deles é fácil notar algo que se repete bastante ao longo do livro: os diálogos não são lineares. As personagens estão em uma conversa no presente, mas que sempre se deixa atravessar por outros assuntos, seja do passado, seja de conflitos inter-pessoais. E isso, apesar de ajudar um pouco na confusão, é algo incrível, porque passa ao leitor o transbordamento das vidas das personagens. Podemos não saber o antes e o depois completos, mas os diálogos nos oferecem pinceladas para a imaginação. 

Outro ponto fácil de perceber é que os contos não têm um final, algo que amarra as histórias. Por vezes, o sentimento de surpresa e desapontamento com um "final" abrupto aflora, mas não deixa de ser encantador. Acho que, justamente por causa disso, os contos são diferenciados e despreocupados com o que o leitor quer. Eles oferecem, na verdade, o que o leitor precisa. Mesmo que seja pouco ou incompleto. Me fez pensar, por exemplo, nos recortes que fazemos de vidas alheias em nossas realidades. Nós esperamos um final, mesmo que saibamos que um final pode representar, também, um recomeço ou mesmo uma incompletude. 

A riqueza das narrativas é incomparável. Refletem, acima de tudo, a brasilidade. Foram escritos em outra época (a primeira publicação é de 1970), mas ainda faz o leitor se identificar. Os contos se aproximam da ideia das crônicas, que carregam uma atemporalidade mais fincada. Características culturais da época retratada aparecem a todo instante e, para mim, foi bastante enriquecedor. Palavras em "desuso" também aparecem com frequência, mesmo que a minha edição seja a mais recente, de 2009. Adorei o fato de a editora ter mantido esses detalhes, pois manteve o caráter literário de Lygia. 

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O conto homônimo "Antes do baile verde" foi escrito em 1969, em meio ao desânimo do AI-5. Mas foi o suficiente para que Lygia Fagundes Telles ganhasse o primeiro lugar do prêmio francês "Grande Prêmio Internacional Feminino para Contos Estrangeiros de Cannes". No ano seguinte, a publicação de 16 contos contidos na antologia de mesmo nome do conto premiado aconteceu. Depois de 1970, já teve 20 e, atualmente, na sua versão definitiva, tem 18. 

Fique esperto!
Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles.
Garras de veludo. Posfácio de Antonio Dimas (professor titular de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo).

um apêndice maravilhoso sobre o livro e a autora, ao final, escrito por Antonio Dimas, Carlos Drummond Andrade (uma carta) e Urbano Tavares Rodrigues (um depoimento) é igualmente enriquecedor e curioso, porque complementa os contos de forma muito harmônica e pertinente.

Love, Nina :)