28 de dezembro de 2013

#A primeira carta de amor

Eu almejara o amor há muito tempo, disso meu coração bem tinha ciência. No entanto, de acordo com seu aspecto mais amplo, eu não era uma exímia entendedora. Claro, eu era jovem demais para entender um sentimento tão complexo e arrebatador quando o amor – e por isso mesmo me era cabível aprendê-lo. Ninguém sabe amar desde o nascimento. Bem, é claro que amamos nossos pais até pelo menos atingirmos uma idade suficiente para quebrarmos os vínculos estritamente amorosos. Mas, veja bem, o amor vai além das barreiras familiares. E quando ele acontece é como pular a cerca da fazenda e se aventurar pelos pastos até então inexplorados: esse outro tipo de amor, o romântico, se incute em nós por conta de pessoas que sequer conhecemos de verdade. É a partir desse ponto que a nossa vida independente começa – é a partir daí que seguimos os nossos próprios passos, que quebramos a cara sozinhas, que enfrentamos problemas irresolutos por irresponsabilidade, que aprendemos dos mais variados modos a sobreviver no mundo.

Com você, eu via essa necessidade. De aprender cada vez mais a retribuir.

Mas, acima de tudo, você me ensinou a ser amada. Não que muitos tenham tentado tal feito – na verdade, acho que de forma genuína, você foi o único. Aos que tentaram antes, eu repelia. Você não era meu alvo, era meu destino. Eu sabia que deveria me reservar para você. Não tinha cem por cento de certeza, é claro, mas a esperança renascia a cada momento que passávamos juntos. Acreditava que não era para ser com os outros. Era com você que meu coração se contentaria, se inundaria de amor. Apesar de ter sofrido calada por tanto tempo, você conseguiu me fisgar do modo certo, não teve medo de investir em mim e aceitou todos os meus ditos ‘pontos fracos’ – eles diziam muito sobre mim, era o que você me falava sorrindo e roubando um selinho meu. Você não fugiu e ria das minhas neuroses não porque as achava engraçadas, mas porque, de certo modo, as compreendia. Apesar de muitos pontos apostos que, por vezes, nos afastavam, havia muitas histórias que nos uniam, que nos faziam entender como um. Acho que não nos atraíamos porque éramos apostos, mas porque nossas diferenças é que acabavam nos completando. Havia dificuldades, é claro. Mas nosso relacionamento estava sendo construído com um misto de companheirismo e confiança. Eu confiava em você. Muitas não confiariam, mas eu estava cega de amor. 


Com muito amor, Nina. 

22 de dezembro de 2013

#Coisas, definitivamente, de Amélia.


Amélia não sabia quantos anos tinha, ela nunca se prendia à isso: que diferença fazia um ou dois anos a mais, quando ela apenas continuava a viver? 

Mas, após completar 10 anos, ela dizia que toda a sua vida começara a acontecer depois dos sete. Era o que se lembrava. Antes, havia tanta lama e tecidos puídos que nada daquilo era suficiente para sua memória. Então a criança descartou tudo. Antes e depois. Aquele episódio é que proporcionou o seu próprio divisor de águas.

- Criança, estão te chamando. 
Era a morcega-velha. Ninguém gostava muito dela, embora Amélia nutrisse certa curiosidade por ela. Porque estava ali, se tinha tanto? E por quê, por Deus, não tinha filhos ou um marido visível? Por que aquela mulher não tinha uma vida? 
- Dona Mari, quem está me chamando? 
A morcega-velha, essa sim, era uma Mari. Comum, com grandes olhos azuis-acinzentados, mãos calejadas e sempre exibindo as mesmas roupas, as mesmas que Amélia contestava serem pijamas. "Mas Dona Mari, por que está de pijama?", Amélia desatava a perguntar. A velha sorria, apesar de fazer tal gesto com raridade. "Criança, não estou de pijamas!", a mulher sempre tinha de rebater. No dia seguinte, a cena se repetia. Incansavelmente. Dona Mari parecia não se importar. E continuou não se importando pelo resto de sua pacata e resignada vida. 
- Ora, criança, é um homi de amarelo! Aquele homi de amarelo que nunca vem aqui! 
- Certamente, não é o Papai Noel - Amélia refutou, caminhando pelas poças que tinham se formado depois da chuva no quintal dos fundos. 
- Eu que não sei. Quem é esse tal?
- Dona Mari! - Amélia começou a rir. Não respondeu e deixou a velha sozinha no terreno dos fundos. Foi feliz e saltitante. Sua mãe já tinha lhe respondido quem poderia ser o homem de amarelo. Quem não o reconheceria? 

- Cadê a Dona Amélia, mocinha? - o homem quis saber. Isso provocou um riso contido na garganta da criança.
- Não sou Dona ainda não, seu moço! Sou pequena demais ainda, você vê?
- Você é Amélia?
- Eu sou Amélia, sim. 
- Ótimo, isso é para você - ele estendeu seu braço com um pacote pardo na mãos. Parecia relativamente grande, grande o bastante para fazer os olhos da pequena Amélia brilhar com intensidade. Será que aquele homem era, afinal, o Papai Noel? 
- Por quê?
- Se você não sabe, como vou saber?
- Ai, seu moço! Deixa disso, sem surpresa! - Amélia colocou uma mão na cintura, irritada. Por que ele não poderia dizer? O carteiro, sem saber o que lhe retrucar, tomou seu rumo e foi-se. Amélia logo remexeu o pacote em suas mãos, inspecionando cada centímetro. Depois de perder alguns segundos analisando o objeto com os olhos semi-cerrados, desconfiados e curiosos, voltou para o interior da casa. Ninguém estava lá, lembrou-se, então partiu para o terreno do fundo. 

- Dona Mari! - a menina se assustou ao notar a velha contemplando-a do outro lado da cerca. Sua saia desbotada esvoaçava. 
- Então? - ela respondeu. 
- Não sei. Será que abro?
- Pra quem era?
- Pra mim. A senhora sabe de quem é? 
A velha deu de ombros.
- Criança, não sei de tudo, não. Abra, quero ver!
A garota não perdeu mais tempo: rasgou o papel pardo com excitação. Algo caiu no chão de terra. 
- Puxa vida, estraguei tudo! - ela exclamou, se inclinando para recuperar o que tinha lhe escapulido. 
- O que é? Venha mais para cá! Não vejo daí! - Dona Mari reclamou, impaciente. A velha era tão curiosa quanto a própria Amélia. A criança brandiu o objeto, ainda dentro do invólucro de plástico bolha. 
- Olha isso! Aperte, Dona Mari! - Amélia estourou algumas bolhas, sorrindo maravilhada. O que era aquilo, afinal? Tão divertido! Será que era aquilo? Bolhinhas de apertar? Dona Mari apertou e, ainda impaciente, puxou o objeto das mãos de Amélia. Com as garras trazidas pela velhice, ela conseguiu libertar o que tinha ali escondido. - O que é, o que é?
Dona Mari avaliou o item; os olhos chispando de cima a baixo, da esquerda pra direita. Dou de ombros e disse:
- Acho que é um livreto.
- Livreto, é isso que é?
- Esse eu não conheço, mas com certeza é um livreto. 

Amélia puxou o livreto de volta para suas mãos. Era bonito. Tinha um desenho engraçado: um rato lendo um livreto, na capa. Amélia nunca tinha visto nada parecido. Seu coração batia tão alto e tão depressa! 
- Dona Mari, os ratos sabem ler?
- Você é uma ratinha e não sabe ler também?
- Mas eu sou gente! Ele - Amélia apontou o rato da capa do livro - é um rato
- Deixe de bobagem! Abra-o de uma vez! 
Outra coisa foi ao chão. Algo de pouca espessura e alvo. Mas o que era aquilo? Amélia logo agarrou, sentindo seu coração dar outro pulo em seu peito. 
- Puxa! Um papel! Esqueceram aqui dentro! - ela revirou-o em seus dedos e o desdobrou. Algo se revelou e provocou outra onda de excitação na criança. Letras, escritas à caneta preta, apareceram. Eram inclinadas e do tipo cursiva, aquele tipo que Amélia sabia reconhecer. - Dona Mari, escreveram pra mim! É uma carta
- Mas quem gastaria tinta com você, miudeza?
- Vou ler pra senhora, tá?

Querida Amélia,
Eu adoro cartas e espero que você também goste delas. Você me pediu um livro, escreveu dizendo que não tinha nenhum e que precisava treinar a leitura. Fui à procura de muitos, daqueles com desenhos coloridos e vivos, daqueles sobre bruxas e fadas. Mas acabei não gostando de nada e percebi que, se eu não estava gostando, você também não gostaria. Arrumando meu armário, encontrei este título, Um Rato na Biblioteca. Sabe que comecei a me interessar por leitura por conta dele? Acho que eu tinha uns 8 anos e lembro que copiei todas as cenas dele em muitas folhas de papéis na casa da minha avó. Espero que ele lhe traga a mesma paz e gosto pela leitura quanto trouxe à mim àquela época. Te desejo um Feliz Natal à você e à sua família. Sinta-se abraçada por essas palavras, pequena. Que você cresça rodeada de felicidade e riqueza interior. 
Com muito amor, 
Eu. 

Os olhos de Amélia, apesar de ela não ter reparado de início, estavam úmidos. Era uma carta muito linda. Tinha gostado do ratinho e da carta. Iria gostar daquele livro e de cartas para sempre, a partir daquele momento. 
- Puxa, Amélia. Você é tão amada por alguém que nem te conhece!
- Gosto de ser amada assim, também, Dona Mari. 


Você pode conferir o primeiro texto sobre a Amélia, contido na categoria "Coisas de Amélia" bem aqui. 

I wish you a marry christmas, Nina. 

#Resenha: Neve

Título Original: Kar
Autor: Orhan Pamuk
Páginas: 487 
Editora: Cia das Letras
Ano: 2002
Gênero: Literatura turca














Ka é um escritor que foi exilado durante algum tempo na Alemanha e retorna à uma cidadezinha turca com o pretexto de escrever sobre uma onda de suicídios de garotas muçulmanas que tem se tornado cada vez mais corriqueira. Uma nevasca, no entanto, obstrui as estradas e acaba por insular a cidade e o escritor. 
O silêncio da neve, pensou o homem que estava sentado logo atrás do motorista. Se aquilo fosse o começo de uma poema, poderia chamar o que sentia em seu íntimo de o silêncio da neve. - p. 11
"Se você não é capaz de confiar nas pessoas, nunca vai conseguir chegar a lugar algum da vida". - p. 84
Um homem vive a sua vida e então desaparece e não sobra nada. Ka sentiu como se metade de sua alma tivesse acabado de abandoná-lo, mas a outra ainda permanecia; ainda havia amor em si. Como um floco de neve, ele haveria de cair quando chegasse a hora. Ele iria se devotar de corpo e alma ao melancólico curso pelo qual sua vida enveredara. - p. 105
Ka se envolve em muitos relatos de familiares cujas filhas ou netas acabaram com as próprias vidas com medicamentos ou armas; a maioria parece acreditar que as jovens eram infelizes em seus casamentos, ou por conta das pressões da sociedade. Em meio a tudo isso, ele acaba revelando o porquê está ali: quer conquistar a mulher por quem se apaixonou na escola, que é um filha do dono do hotel onde ele está hospedado. Em meios às investidas que faz em Ipek, estoura um golpe militar patrocinado por dois atores, os quais encenaram uma peça no teatro que acabou por escandalizar a plateia. Ka, então, é jogado para dentro desse vórtice como protagonista involuntário. 
"Lembre-se: assim como no teatro, a história escolhe aqueles que vão desempenhar os papéis principais. E assim como os atores testam a sua coragem no palco, os poucos que a história escolhe fazem o mesmo no palco da história. - p. 231.
"A principal tarefa de um agente é fazer as pessoas mudarem de ideia" - p. 369. 
 "Felicidade é encontrar um outro mundo onde se possa viver, um mundo onde seja possível esquecer toda essa pobreza e tirania. Felicidade é tomar alguém nos braços e saber que está enlaçando o mundo inteiro. - p. 373.
A revolução que a cidade sedia é desencadeada por conflitos um tanto quanto religioso: cobrir-se, lá, é uma indicação de respeito e amor à Deus, por conta disso as meninas utilizam seus mantos para irem ao liceu; esse dogma se quebra quando o diretor do liceu proíbe o uso dos véus. A peça encenada pelo casal de atores retrata uma cena de uma mulher retirando o véu e o queimando - isso, para eles, é um ultraje: então os militares sobem ao poder, aterrorizando a todos, investindo na violência. Ka se vê coagido a ser um intermediário entre um terrorista procurado e a polícia. 
"Uma mulher não se mata porque perdeu o amor-próprio, ela se mata para mostrar seu amor-próprio" (...) "O momento do suicídio é aquele em que se sente melhor como é solitário ser mulher e o que significa realmente ser mulher". - p. 450
Há uma temática muito bem trabalhada e complexa neste livro - até mesmo um tanto quanto confusa para nós, ocidentais -, e alguma pitada de peculiaridade. Embora a trama aborde, em sua maioria, a política e a religião, há nuances de romance e 'mundanidade' - Ka quer se entregar ao amor, pois é solitário; muitos acreditam que ele é solitário porque é ateu, até que ele conhece um sheik, a quem confessa que deseja muito acreditar em Deus. Por conta de partes que carregam muito nos tópicos religioso e psicológico, a leitura se torna um pouco cansativa. Eu realmente não sei como consegui lê-lo em quatro dias, pois tinha muita vontade de pular alguns capítulos, mas fiz uma força para não fazer isso, pois tinha ciência de que, por conta da complexidade da trama, acabaria por me perder na ocorrência episódios. 
"Ele era um homem que se preocupava com as pessoas e gostava de cachorros também - um homem bom. Mas sua mente ainda estava na Alemanha, e era muito introvertido. Hoje em dia ninguém mais aqui gosta de Ka". - p. 479
Eu me interessei pelo livro, pois já o conhecia e já sabia que ele tinha ganhado o Prêmio Nobel da Literatura de 2008 e, como já estava me distanciando completamente à minha zona de conforto com relação às minhas leituras, decidi conferir esse desafio. Apesar de ser, realmente, um pouco maçante, quem gosta de diversificar, tenho certeza de que vai encontrar alguma beleza contida neste livro, assim como eu. A beleza, creio eu, está justamente na neve: a partir dela, tudo se construiu e se desfez. 


Love, Nina.

18 de dezembro de 2013

#Gifts, please!

Para quem não sabe, antes de ontem foi meu aniversário, e isso me rendeu ótimos presentes. Convidei poucas pessoas, mas que são bastante próximas, à reuniãozinha que fiz numa pizzaria e o papo estava tão bom que cheguei em casa depois de quatro horas sentada lá. Então, esse post é dedicado não ao meu aniversário, mas aos presentes que ganhei! Pretendia escrever um texto em comemoração ao meu dia, mas a falta de tempo me atrapalhou bastante, e agora não sinto mais vontade de escrevê-lo! Eis os lindos presentes: 

1. Um kit com mini-esmaltes da Panvel. 


Como podem perceber, eu fiquei curiosa para experimentar uma das cores! Por cima, passei esse "efeito", que assegurou um aspecto muito interessante e divertido às unhas! 

2. Extraordinário (R. J. Palacio)
3. Cidade dos Ossos (Cassandra Clare)
4. Escola de Espiãs - Se Arriscam em Dobro (Aly Carter)
5. Perfume da Victoria's Secret. 

O único livro que realmente ganhei foi Extraordinário, os outros dois eu comprei por conta dos vales-presentes recebidos! Queria ter comprado O Chamado do Cuco, mas não havia mais exemplares na loja ): Espero conseguir lê-los na minha viagem à São Paulo, então, em breve, mais resenhas a vocês! 

Happy Birthday to me, Nina. 

13 de dezembro de 2013

#Resenha: A Menina Que Não Sabia Ler

Como meus dias estão sendo preenchidos por leituras e ataques de escritora, tenho mais uma resenha novinha pra vocês! 

Título Original: Florence and Giles
Autor: John Harding
Ano: 2010
Páginas: 282
Editora: Leya
Gênero: Literatura Inglesa

Primeiramente, sou apaixonada por essa capa tão linda e simples. Adoro as capas da Leya, pois se assemelham muito com a da Cia das Letras em termos de simplicidade. Então, uma amiga me emprestou seu exemplar. Demorei para começá-lo, mas a leitura é tão agradável e inteligente que o li em dois dias. 

A história se passa século XIX, numa propriedade chamada Blithe House. Nesta casa vivem duas crianças, Florence e Giles, e três empregados, Sra. Grouse, Mary e John. Quem a abastece é um tio das crianças, cujo irmão era pai delas - que já é falecido, assim como a mãe de Florence e a madrasta de Giles. 

De início, a trama é bastante calma; apenas ficamos sabendo sobre as artimanhas de Florence, de 12 anos, com relação aos seus dias literários. Embora hoje em dia qualquer criança que esteja nessa faixa etária seja letrada, o tio das crianças não permitiu que Florence se alfabetizasse - por isso, ela tem que fingir que não sabe ler nem escrever. Ela passa suas manhãs e tardes se escondendo dos criados para conseguir ler seus livros preferidos na grande biblioteca da casa. Florence, muitas vezes, se faz de burra apenas para que não descubram seu segredo. 

Eu, entretanto, passava horas e horas lendo (...) meu quarto tornou-se um depósito de livros. 
Quando Giles vai para um internato, Florence é obrigada a se entreter sozinha - no entanto, acha diversão com um suposto 'pretendente', o vizinho Theodore, a quem ela se refere como garça, pois é todo desengonçado. Ela, então, percebe que, apesar das investidas do garoto para beijá-la, Theo é uma boa companhia. Ele a visita quase todos os dias, por conta da sua asma, e a tira um pouco dos livros. Porém, quando Giles é 'dispensado' do internato, devido a problemas internos, Sr. Grouse - que é uma espécie de governanta - acha melhor que o garoto tenha um tutor. 

A princípio, chega a Sra. Whitaker. Mas ela não fica muito - acaba se envolvendo em um acidente no lago e morre. Esse episódio é o ponto de partida para uma série de consequências e acabamos, enfim, entendendo o prefácio:
O cisne: Foi em abril, eu me lembro bem, embora em meu espírito fosse dezembro, que um pássaro ferido foi retirado da escuridão do lago, as penas brancas brilharam ao sol, e de sua boca escorreu água negra enquanto por dentro minha voz gritava até pensar que meu coração iria se partir; fui eu quem assisti à sua morte, seguindo à deriva, à deriva, esperando em sua vigília que Deus levasse sua alma. 
Com a morte precoce da Sra. Whitaker, é preciso arranjar outra preceptora. Assim, chega à Blithe a Sra. Taylor, concedendo à Florence um ceticismo enorme. Florence nos conta, bem no começo do livro, que sofre de sonambulismo e que tem um sonho esquisito sobre a segurança de Giles. Ela começa, então, a ficar paranoica com a Sra, Taylor. Até que uma noite, a garota percebe que sua paranoia tem fundamento: seu sonho com Giles e com uma figura fantasmagórica se concretiza. A partir daí, Florence é obrigada a ficar em constante vigília, sempre tentando convencer o irmãozinho de que a preceptora é uma bruxa, ou uma fantasma e que pretende fazer algum mal à ele. Giles, claro, muito pequeno, não acredita. Florence até mesmo envolve o capitão da polícia no episódio - a princípio, ele acha que a menina está sofrendo de histeria, porém, após averiguar algumas informações, começa a entender um pouco o medo de Florence. Quando a menina descobre duas passagens de navio, que ela acredita serem para a Sra. Taylor e para Giles, ela tem que correr contra o tempo para arquitetar alguma armadilha e fazer com que o plano da tutora não se realize. 

Na contra-capa, há a seguinte frase, que eu acho completamente justa: 
Na tradição de Henry James e Edgar Allan Poe, uma história incrível sobre uma menina e o poder de sua imaginação. 
Ou seja, ao final, você tem a sensação de que Florence apenas estava pregando uma peça. Cheguei ao ponto de pensar que toda aquele mistério seria apenas um sonho da garota. A história é tão envolvente e inteligente que nos confunde e nos faz ficar apreensivos como se estivéssemos assistindo Pretty Little Liars. Quando toda a tensão e todo o confronto final ocorre, me surpreendi. O desfecho é completamente complexo para uma realidade de uma garotinha de 12 anos. Assim como os desfechos meticulosos de Poe (pois nunca li nada do Henry), o desse livro é igualmente perturbador e fantástico (em todos os sentidos). Outro segundo ponto que me agradou foram os neologismos de Florence, que dizia francesar, shakespearear e hamletar

Love for books always, Nina. 

11 de dezembro de 2013

#Ah... E essa espera toda?

E aí está você, veja só. 
Acho que nos desencontramos, não? Você continua sentado nesses mesmos degraus, continua com a mesma expressão de desolação, com os mesmos All Stars vermelhos, com o mesmo penteado no cabelo. 

Você tem esperado, incessantemente. Minutos se vão, e quando completam mais uma hora perdida, não há por que voltar pra casa, né? Você ainda espera.

Esperou por aquela menina com quem sentou-se ao lado no ônibus. Ela nunca mais retornou. Você nunca mais a viu. 
Esperou que te dessem valor. Todo mundo apenas se interessou pelo que você tinha a oferecer, não deram atenção pelo que você é. Foram embora, depois de um tempo.
Esperou pela resposta da mensagem. Não conseguiu terminar o jantar, porque seus olhos estavam fixos à tela do seu celular. A resposta nunca veio. Será que ela ao menos a leu? Você não sabe. 
Esperou pela liberdade de ser quem é. Ninguém lhe deu uma sequer chance. Você, disseram, é apenas mais um, acostume-se com isso. E, no fim, você se acostumou. 
Esperou pelo reconhecimento. Pisaram em você. Aqueles com quem você mantém contato direito nem ao menos te olham na cara quando você, tímido, cruza a sala de reuniões. Você é um nada para eles. 
Esperou pelas conversas. Mas você sempre tão fechado não deu o primeiro passo. Perdeu a oportunidade de conhecer alguém novo. E, talvez, esse alguém novo fosse se tornar a sua pessoa. Você a perdeu, seu medroso. 
Esperou pelo fracasso final. Ele, entretanto, não veio. Você suportou ter a corda no pescoço diversas vezes, mas não terminou com tudo. Continua lá, naquela mesinha, naquela salinha, com aquelas pessoinhas, sem reivindicar nada. Você poderia ter dito o quanto estava de saco cheio, que gostaria de atirar tudo para o alto, mas não proferiu nada. Abaixou os olhos e concordou. E, agora, o fracasso apenas se anuncia, nunca se concretiza.
Esperou pelo momento perfeito. Ele passou. Você não falou o que gostaria, não beijou quem mais amava, não dançou a sua música preferida. 
Esperou por aquela carta. O remetente esqueceu-se de você. Quem gastaria papel, tinta e palavras com você? 
Esperou pelo sono. Passou a noite em claro, com insônia. 
Esperou pela vida. Veja você aí, ainda sentado esperando. 

E, no fim, você se tornou a esperança de tudo aquilo que gostaria de ter feito, de ter sonhado, de ter conquistado. As pessoas continuaram; você, entretanto, perdeu sua vida enquanto esperava. 

Tá esperando demais, meu caro. Pare com isso. 
Tire esse All Star, estique as pernas e se levante. Em outra escada, em outra esquina, sua vida pode recomeçar. Vai perdê-la se não parar de esperar. 


Don't wait forever, Nina. 

#Por que rezar, então?

Hoje, sim.
Não por Deus, mas por mim.
Apenas por mim.


Não sou batizada, embora finja ser católica. Finjo ser, também, um pouco cristã. 
Não acredito em Deus do modo que você. Ele não é um velhinho para mim, que mora por entre as nuvens e que está anotando cada pecado meu. Ele é muito mais que essa velha bobagem. 

Fui criada em meio a um asilo que abriga uma das casas de Bezerra de Menezes. Na época, era criança e aceitava as lições e os passes. Gostava, na verdade, de passar meus sábados e domingos lá para tomar danoninho e brincar com os meninos. Era divertido, muito mais divertido de que brincar de boneca com as garotas. E, naquela época, eu me dava muito melhor com meninos. Devo a um dos irmãos da minha mãe e à sua esposa por esses dias. O espiritismo sempre me agradou: rezava todas as noites com minha avó e, uma vez por semana, com este meu tio, o Evangelho.  

Mais de dez anos depois, afastada de qualquer religião, a esperança me renasce. Perdi meu pai ano passado e, embora não doa mais, é sempre muito bom ir à Casa de Bezerra de Menezes aqui em Porto Alegre. Ela funciona das nove da manhã às nove da noite, de segunda a sábado, e a cada hora uma pessoa dá uma 'palestra' sobre algum assunto que permeia o Evangelho. Das últimas quatro vezes, ouvi dizerem sobre 'Honrai Vosso Pai e Vossa Mãe". Achei que iria me cansar, mas não - cada pessoa que vai lá na frente tem algo diferente a dizer. Semana passada, tive de lutar para não sair dali, tamanha as coisas ridículas que escutei. Daí, minha mãe disse que eu não entendi o que ouvi. Certo. Porque é mesmo muito ruim discordar de um cara que não sofre pobreza e que diz que a desigualdade é fruto do progresso, portanto necessário. Necessário para ele que tem tudo. 

Além das palestras, há o passe. Há três tipos de passe: o coletivo, o individual e aquele que faz cirurgias espirituais. Eu e minha mãe sempre esperamos pelo individual. É engraçado: sempre que saio de lá, minhas dores se amenizam. Minhas dores, em sua maioria físicas, se vão quase que completamente. 

Ontem, a palestra era sobre o Natal. O cara foi aplaudido ao final. Isso nunca tinha acontecido antes. Acho que ele é médico neurologista. Foi incrível. 

Não é para deixar Deus feliz que você reza. 

Finalmente, alguém que sabe das coisas. Alguém que estudou por anos um assunto para poder falar com certeza sobre isso. Não um cara que idolatra Deus, porque acha que vai ser recebido pelas 72 virgens quando for para o céu, se for. 

Rezar ameniza muita coisa, dores internas e externas. Pensamos mais sobre a felicidade quando rezamos. Estudamos e dormimos melhor. O cérebro fica muito mais operante, também. Salvam da depressão, da tristeza e do ódio. Melhora a circulação, o sistema corporal e a mente. Somos, literalmente, "limpados' depois de orar. Tudo que não serve vai embora. E não é porque Deus tirou essas coisas de você, veja bem. É porque você mesma está fazendo isso contigo. 

Não é Deus, ou por Deus. É você e por você. Entendeu?


Não espere, Nina. 

8 de dezembro de 2013

#Resenha: Você tem ideia do que foi viver no Holocausto?

Êêê, mais uma resenha! Com as férias estou tendo até mesmo disposição para resenhar (o que é um milagre!) todos os livros que tenho lido durante as minhas lindas tardes calorentas. 

Título Original: Sorstalanság
Autor: Imre Kertész
Ano: 2003
Páginas: 175
Editora: Planeta 
Gênero: Literatura judaica húngara

Nós pensamos que o Nazismo não alcançou nada além dos povos judeus, certo? Pois neste livro, fica claro o quanto qualquer outro povo, qualquer mesmo, que não fosse o alemão, sofreu nos campos de concentração. Esse é o exemplo da Hungria.

Em tempos de ascensão alemã, um garoto de quinze anos é dispensado da aula, para poder se despedir de seu pai, que está sendo enviado a um campo de concentração. A princípio, o garoto é impassível - afinal, como saber pelo que o pai passará longe dele, se ele não sabia muito sobre nada? Mas então, após a partida do pai, ele mesmo é enviado a um campo. O transporte ocorre de modo um pouco confuso, ele passa por muitos trens e por vários destinos num ambiente precário, sem comida, sem higiene, sem certeza alguma. Ele apenas tem a esperança de que chegará a algum ponto. Quando chega, está em Auschwitz-Birkenau, numa rede de campos de concentração localizada ao Sul da Polônia. O personagem ainda é curioso, não teme por muito, está sempre especulando o que vê como se não fosse sofrer ali, como se estivesse numa colônia de férias decadente.

O trabalho é pesado, o frio o assola, as vestimentas são puídas, os calçados quase se fundem aos seus pés. Conforme o tempo passa, ele conhece várias pessoas de outras nacionalidades que enfrentam as mesmas condições - alguns estão ali há quatro, seis, doze anos. Segundo o próprio menino, essas pessoas apenas não sucumbiram à morte, pois sabiam que se libertariam dali um dia. E, dia após dia, suas vidas se tornam cada vez mais escassas, mais debilitadas. Um ponto que, enfim, o faz acordar para o horror que vive é o momento no qual vê, por detrás das cercas que os separam, as mulheres trabalhando: pareciam homens, mas eram mulheres - seus cabelos foram raspados e estavam tão enfraquecidas quanto os homens. 
"Você teve que passar por muitos horrores?", e eu respondi que dependia do que ele considerasse horror. Certamente - disse, com o rosto visivelmente tenso -, você deve ter aberto mãos de muita coisa, passado fome, e talvez tenha apanhado, e eu disse: naturalmente. "Meu filho, porque a tudo você diz" - gritou, a meu ver, perdendo a paciência - "naturalmente, e sempre para o que não é natural?!" Disse-lhe: "Num campo de concentração isso é natural". "Sim, sim, lá sim, mas..." - e se deteve, hesitou um pouco - "mas... mas o campo de concentração em si não é natural". 
"Meu filho, você não gostaria de fazer um relato das suas experiências?". Surpreso, respondi que não tinha nada de muito interessante para contar. Ele deu um breve sorriso e disse: "Não para mim: para o mundo". Diante disso, ainda mais surprese, eu quis saber: "Mas sobre o quê?". "Sobre o inferno dos campos", respondeu, e eu afirmei que acerca disso nada poderia dizer, pois não conhecia o inferno, nem seria capaz de imaginá-lo. Porém, ele observou que se tratava apenas de uma espécie de comparação: "Não é preciso imaginar o campo de concentração como inferno". 
Após meses de trabalho intenso e recebendo pequenas porções de sopas intragáveis, seu corpo não suporta mais tantos maus-tratos - está pura pele, não há mais músculos, não há mais nada. Há feridas cobrindo suas juntas, escamas que parecem se confundir com a carne e seus pés parecem ter sido reduzidos a um montinho de coisa inútil. Mal consegue se locomover, tamanho o mal-estar e tamanha a dor que se alastra. Enfim, ele é mandado para a enfermaria. Lá, passa algum tempo se recuperando e vendo muita gente ir e vir, ser deixada ao relento para morrer. Apesar de tudo, ele se recupera aos poucos. Com a comida reforçada e os cuidados médicos, parece que finalmente há um pouco de esperança. 

Quando dizem que os prisioneiros estão livre, o personagem retorna para casa, que agora é ocupada por um casal de velhos. Não entendi muito bem onde está sua madrasta, mas ele segue para a casa da mãe. Seu pai, à essa altura, já faleceu. Com a vida por inteira, o garoto tenta se reconstituir também depois dos traumas que vivenciou. 

Eu apanhei este volume por puro impulso e não me arrependi, muito embora eu tenha ficado muito trancada na leitura. A narração é corrida, é muito assimilável, porém as palavras alemãs, quase sempre sem tradução, e os discursos indiretos que permeiam a narrativa me irritaram um pouco. A história, no entanto é bela. Há muita tristeza, mas há nuances de celebração e de humanidade. O autor conseguiu conduzir a trama de forma leve e conseguiu transmitir todo o horror desse período. Não se tornou um dos meus livros favoritos, porém valeu pela lição literária. 
"E quais são os seus planos para o futuro?" Meio surpreso disse: "não pensei muito nisso" (...) "Antes de mais nada, você tem que esquecer os horrores". Perguntei, admirado: "Por quê?". "Para poder viver. Viver livre" - ao que outro velho assentiu e acrescentou: "Com um peso assim não se pode começar uma nova vida"
Todos perguntam apenas das condições, dos "horrores", ao passo que, para mim, a experiência mais memorável é esta. Sim, da próxima vez, se me perguntarem, eu deveria falar isso, falar da felicidade nos campos de concentração. Se me perguntarem. E se eu não me esquecer.  
Curiosidades:
Um filme de nome homônimo ao livro foi feito na Hungria, em 2005. 
O livro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2002. 

Love, Nina. 

6 de dezembro de 2013

#Dissidência por um nadinha de Bibi

Não lembro quanto anos eu tinha, acho que cinco, ou seis. Era Natal. Estávamos tão felizes em meio àquele mundo tão brilhante e tão amoroso. Então Bibi derrubou tudo das minhas mãos. "Você não pode, esse é meu!". Acho que eu era muito mais ingênua que minha irmã mais velha, porque, ainda criança, acreditava no Natal, nas pessoas e nos gestos. "Mas eu quero um também!", eu fiquei choramingando. Minha mãe, sempre muito impaciente, não demorou a notar a confusão dentro da loja. Com olhar de repreensão, ela tirou as bonecas idênticas das nossas mãos. "Se vão brigar, nada feito", ela disse.

Mas era uma boneca tão bonita, eu a queria também, e não porque Bibi a queria. Era tão mais pessoal que isso. Como poderia dizer que aquela boneca era eu, que fazia parte de mim? "Bibi, pare de ser chata", minha mãe disse. Minha irmã começou a chorar, mesmo com sete anos. Saímos da loja e nunca mais se falou nisso. Ganhamos uma bicicleta cada uma. Mas eu ainda queria aquela boneca. 

Quando crescemos, eu quis ter um pouquinho de Bibi em mim. Era um nadinha de Bibi, o suficiente para irritá-la. 

"Maria Júlia, você poderia ter avisado que pegou minha blusa". Eu não sabia que ela a usaria também, como saber? "Sai pra lá, reclamona. É só uma blusa", eu disse. Bibi não aceitou. "Quer parar de tentar ser como eu? Você é tão mimada, sabia? Eu faço muito mais coisas que você, não sou reclamona!", Bibi logo exclamou, brava. "Eu não gosto das coisas que faz, tô nem aí pra isso", respondi. "Pare que querer tudo que eu tenho! Não quero ser você!", Bibi gritou. 

Oh, como Bibi não me conhecia! 

"Como se eu quisesse ser muito Bibiana! Você se ocupa o tempo todo, e eu sei que usa isso como desculpa. Não quero ser você, obrigada. Porque se eu não tenho tempo, tô nem aí. Tô feliz, você não. Olha só você agora, toda irritada por causa de uma coisa besta", assinalei. 

"Coisa besta, Maria Júlia? Você quer tudo o que eu quero desde sempre! Você é uma ladra de Bibiana!".

Eu, uma ladra de Bibiana? 

"O que você quer? Que o mundo seja perfeito? Então tente ser perfeita também! Quero ver, você não vai aguentar. Você fica fingindo que é perfeitinha por fora, mas é toda embaralhada por dentro. Fica fingindo que as suas ações não dizem nada sobre você".

"Eu quero ter a minha autenticidade, entendeu? Com você sendo Bibi demais, fico Bibi de menos".

"E daí que eu admiro você, Bibiana? Você já deveria ter se acostumada, entendeu? Eu sempre fui 'a irmãzinha da Bibi do 4º quarto ano', você nunca foi 'a irmã mais velha daquela garota que ninguém sabe o nome daquela série que eu não lembro agora'. Vê a diferença? Você é tudo o que tenho, você é meu mundo fora de mim!", repliquei. "Você é o mundo que eu amo".

"Tá, bom. Mas você vai parar de pegar as minhas coisas sem me avisar?".

Eu sorri. Não respondi nada, porque ela sabia não havia jeito. Eu sempre seria a garota cujo nome ninguém liga e não lembra. E sabe? Sou feliz sendo essa garota, mas com um pouco de Bibi. 


Um pouquinho de Bibi pra todas, Nina. 

4 de dezembro de 2013

#Informar não é comunicar, números não são amigos

Semana passada, eu e meus colegas tivemos um seminário sobre o livro Informar Não é Comunicar, do escritor francês Dominique Wolton. A tese de Wolton é justamente essa: informar está longe de ser comunicação, não somente tratando-se do Jornalismo, aliás. Há a predisposição de nós, como seres, em nos comunicarmos e, para tanto, vale afirmar que tal ação somente acontece quando existe a interação. Quem comunica quer ser ouvido, precisa de um receptor. A informação, em contra partida, é muito mais flexível: multiplicam-se as informações que não têm destino - ninguém as lê, portanto perdem-se por entre tantas outras que lemos, ouvimos e ficamos sabendo. 

Ou seja, há um número crescente de informação, enquanto a taxa de comunicação tem perdido seu valor, declinando-se cada vez mais. Tal ocorrência está dissociada na sociedade de modo a nos divergir. Pois bem, quer um exemplo? 

Os relacionamentos. Todos e qualquer um. Veja por si mesma. Eles demandam interação social: comunicar-se estreita os laços e proporcionam trocas. É a lei da procura nos relacionamentos. O que você dá, geralmente recebe. Porém, observo que, mesmo no meu círculo de amizade, as pessoas têm se fechado para a transação de informações. E a transação é a comunicação se efetivando. É como deveria ser. Quanto mais empenhado você estiver em se relacionar, mais irá se comunicar, e se sentirá realmente satisfeito com o que o ronda. E se há aquela dita falha de comunicação, opa, opa, opa. É informação de mais. 

Não lembro em que ponto da conversa a Raquel Número Dois, ou a Nathy, disse o que também lhes digo:

"Números não são amigos".

É, certo. Você está rindo de mim agora, porque, mentalmente, está dizendo que sabe disso. Eu sei que sabe, veja bem. Mas não é o que tem acontecido. 

As pessoas acumulam números. Pilhas de números. Até quem os odeia, certo momento da vida, começa a adorá-los. 

345 seguidores.
538 vistantes.
1000 amigos no Facebook.

São. Apenas. Números.

E a nossa vida já foi mais do que números. Já foi comunicação, ao invés de informação. Já foi abraços, ao invés de sorrisos amarelos. Já foi flores, ao invés de pedras. Já foi olhos brilhando, ao invés de lágrimas. Já foi amigos verdadeiros, ao invés de amigos de enfeite. 

É bom, gratificante e emocionante que você tenha 345 seguidores? Cara, deve ser. Como você percebe, não tenho isso, e não me incomodo com isso. Meu blog existe há algum tempo, há alguns anos, quase às moscas. E daí? O mais importante é que eu o fiz para mim. Se você gostou do que escrevi, vou ficar feliz, sim. Mas se não gostou e não deu a mínima, não volte mais, simples. Não quero números, daqueles gigantes que sei que não vou poder controlar. E eu não lido com números, lido com palavras. Elas é que são importantes para minha felicidade. 

Seja feliz também, com comunicação e com amigos. Informação todo mundo tem, e números... Seja sincera, você nem sempre gostou deles!


Love, Nina.  

2 de dezembro de 2013

#Resenha em dobro.

Já estava devendo a resenha de Todos Nós Adorávamos Caubóis há alguns dias e como terminei Pantera no Porão, também, decidi postá-las de uma vez, assim me livro um pouco dessa obrigação. É incrível o quanto eu sempre deixo as resenhas pra depois e depois... até que elas somem da minha vontade. Mas vamos lá, enquanto eu estou empolgada!

Título: Todos Nós Adorávamos Caubóis
Autora: Carol Bensimon
Ano: 2013
Editora: Cia das Letras
Gênero: Ficção brasileira

Primeira coisa: esse livro é um dos poucos que você vai encontrar na vida que vai te dar a sensação de que, apesar de tudo, não vai conseguir se livrar dele tão fácil. Não sou de me apaixonar por escritores brasileiros, mas Carol me cativou muito, não somente porque a trama inteira se passa aqui no Rio Grande do Sul, estado que aprendi a amar, mas também porque há nuances em tudo que está por trás das personagens. 

Cora, uma garota que está estudando Moda na França volta para o Brasil, por conta do nascimento do irmãozinho por parte de pai com uma moça que é muito mais jovem que ele, mas Cora deixa todo mundo na mão e vai em busca de um sonho do passado; juntamente com sua antiga amiga Júlia, com quem tem questões pendentes, ela corta o interior do Sul em uma road trip recheada de pequeninas coisas que permanecem a cada cidade deixada. 

Cora recorda-se de episódios do passado, tais quais como conheceu Júlia, como a amizade delas evoluiu até não conseguirem mais retornar à estaca zero, e como essa mesma amizade teve de ser deixada para trás. Essa intercalação de memórias vividas dão a sensação da própria viagem que está sendo seguida. As idas e vindas, o vento na cara, os pequenos aposentos, as noites de insônia, as dissidências que quase nunca são mencionadas. É tudo muito encantador: a escrita - apesar de alguns diálogos emendados terem me confundido um pouco -, a descrição das paisagens - que foi o que mais me chamou atenção ao longo da narrativa -, a exposição do temperamento de ambas as personagens e a delicadeza com a qual a escritora conseguiu transformar a relação das duas em algo que, essencialmente, não passa de amizade. Apesar de tudo, veja bem, esse livro não peca em excessos eróticos ou algo assim. É tudo tão simples, tão harmônico que, em um dia, o livro terminou nas minhas mãos. A leitura não mingua, você nunca consegue se cansar e sempre anseia pela próxima parada, pela próxima cidade. 

Durante todas as páginas fiquei muito curiosa para descobrir o porquê do título, que somente é explicado no final (mas nada de pular já pro final, viu? Leia o livro inteiro, que é mais gostoso!). E o que dizer da capa? Tão simples, tão auto-explicativa! Adoro as capas regadas à muita simplicidade da Cia das Letras! 

E, de forma geral, não sei se prefiro Cora ou Júlia. Quer dizer, Cora tem aquele temperamento meio controverso por vezes e é tão intensa que acho que deixa a Júlia meio sem saber o que fazer/dizer, enquanto a Júlia é toda mais aceitada, com aquele ar de menina do interior, que está acostumada com as coisas mais simples. Acho que, psicologicamente, há muito de Júlia em mim. Mas não sei escolher quem me cativou mais, pois toda a atitude de Cora é muito interessante também. 

~*~

Título: Panter bamartef
Autor: Amós Oz
Ano: 1995
Editora: Cia das Letras
Gênero: Romance israelense

Com certeza, já sou fã desse cara. Estou me apaixonando por tudo aquilo que achei que nunca me interessava. Quem diria que eu leria um romance israelense? Pois eles estão favoritados na minha lista, a partir de agora. 

Pantera no Porão, nome de um fictício filme popular hollywoodiano, narra a trajetória de Prófi à vida adulta. Durante o verão, ainda com 12 anos, Prófi tem sua vida mudada diante da palavra "traição". Ele vive em meio aos livros do pai, que é um estudioso, e sabe a origem e o significado de muitas palavras, aliás, ele ama as palavras. Esse é um ponto muito importante e que me levou a me ver em Prófi. 
"Eu tinha esse apelido de Prófi desde quando era bem pequeno. É diminutivo de professor, e me chamavam assim por conta da minha obsessão pelas palavras. (Continuo amando as palavras: gosto de colecionar palavras, organizar, embaralhar, inverter, combinar palavras)." - p. 7.

"E por falar nisso, já que todos te chamam de Prófi, que vem de professor, quem sabe você não começa a ser um professor, em vez de ser um general-espião? Metade das pessoas no mundo são generais. Mas você não. Você é o garoto das palavras." - p. 128.
Prófi fundou junto com dois amigos uma Resistência clandestina chamada LOM (Liberdade ou Morte). Em tempos de instabilidade política, Jerusalém está ocupada por britânicos, um ano antes da criação do Estado de Israel e a LOM trabalha para que os ingleses sejam expulsos; o pai de Prófi escreve cartazes e os cola pela redondeza com palavras de ameaça, enquanto Prófi, depois de um encontro com um sargento inglês - que tem seu coração depositado nas terras de Jerusalém -, começa a ensinar o hebraico a este, enquanto toma lições da língua inglesa. Prófi, a olhos duvidosos, poderia estar confraternizando com o inimigo, mas está, na verdade, espionando. É seu dever, por ter fundado a LOM, por assim dizer. E entre lições de hebraico e inglês britânico, Prófi é chamado de traidor. Seus amigos dizem que não havia nada de espião nele, enquanto se encontrava com o sargente britânico no Orient Palace (uma espécie de bar). O menino confessa tudo o que eles querem e é liberto, ainda que um de seus companheiros deseje seu fim por tamanha traição. 

Tragado pelo redemoinho de palavras, o jovem descobre muito além do significado de traidor: a sedução é uma arma poderosa em tempos de guerra, e a tentação é algo que o tem acompanhado diariamente, desde que se apaixonou pela irmã mais velha de um de seus amigos. Entre o despertar sexual e de toda a artimanha planejada para que os britânicos parem de patrulhar Jerusalém como se fosse seus donos, a narrativa se confunde entre autobiografia e romance de formação. 
"A mente não consegue compreender. O coração não consegue acreditar. E o mundo inteiro de calou". - p. 23.
Pontos que me chamaram a atenção foram o modo como o pai do garoto o tratava, sempre sem muito amor, e como também tratava a esposa - afinal, era machismo, ou puro falta de interesse? Ainda não sei. Apesar da família nutrir boa relação e ter noites agradáveis jogando banco imobiliário e manuseando as coleções de selos, há certo vácuo - mas que é preenchido bem no final, numa cena realmente encantadora, logo depois do Estado Judeu ser fundado. 

Dono de uma escrita realmente capaz de prender o leitor do começo ao fim sem muito esforço e sempre com muita curiosidade, Amós mostra neste livro por que é considerado o mais importante escritor israelense da atualidade.  
"Ei-los aqui de novo, os sedentos, os ressequidos, os leopardos cuja sede nada no mundo pode saciar. Jamais. Eles perseguem e são perseguidos. Cegos. Cavam um poço, e nele acabam caindo". - p. 85. 
Love for books always, Nina.  

#Aquele seu "Se cuide!"

Não sei muito bem como começar isso, nunca sei. Às vezes, quero que seja apenas uma coisa, mas queria, também, que tudo isso expurgasse o que sinto. A confusão que me testa 24 horas, principalmente. 

Acho que preciso de um pouco de direção, achar um caminho, seguro ou não, para conseguir me entender. Entender a você, também. Já percebeu o quanto você não se abre, o quanto me trata bem, mas passa a imagem de que não é nada de mais? Pois saiba que para mim, isso é tudo. É a melhor parte do meu dia. Você tem estado constantemente me rondando, fazendo a minha mente parar de pensar no que há ao redor. Você aparece, acima de tudo, antes de eu conseguir fechar os olhos. Não sei se os fecho por conta do cansaço, ou por conta de você. Você me ganha da mesma forma que o cansaço. É automático. É meio frustrante, também, já que você desparece sempre que há alguma oportunidade. Desaparece demais, quer parar com isso? Gosto de você solícito, com suas palavras de despedida. Porque, na maior parte do tempo, a despedida é o melhor momento entre mim e você. Você é um querido, se derrama por detrás de suas palavras de "Se cuide", ou então "Não esquece de tal coisa". E eu esqueço, você sabe que sim. 

Queria que você me apontasse uma alternativa. Diga, "Essa aqui". Não precisa ser segura, entende? Desde que esteja ainda comigo, que não tenha medo de compartilhar comigo seus segredos, todas as coisinhas que passam pela sua mente e também aqueles projetos que faz; desde que tudo isso ainda aconteça, tudo bem.

Apenas uma direção, uma sugestão para que eu me abra de novo para o mundo, para as palavras do mesmo modo que faço agora. 

Tem dias que acordo e penso que nada disso é real. Por vezes, me convenço disso. Mas então você vem e conversa comigo. Certo, mentira. Eu converso com você. Porque você está distante demais de mim, com a cabeça nas nuvens, em outra cidade, em outra pessoa. Mas eu te trago para a realidade. E quando isso acontece, gosto disso. Queria saber se esse encontro te aquece a alma também, te faz ficar acordado até tarde, te faz procurar as palavras certas para me dizer. E você diz, toda noite. Aquele seu "Se cuide" é a minha frase favorita agora. Ele me faz sentir alguém, não apenas mais uma. 

É engraçado, sabe? Porque eu te conheço há algum tempo, de vista. Todo mundo, aliás, o conhece. Mas eu sou a única que diz, "Gosto dele". Você me conquistou sem nem me dizer um oi. E quando nossos destinos se cruzaram, e eu nem poderia imaginar isso, fui me apegando ainda mais. Gostava de te ver correndo para o telefone, discutindo com seus familiares pelo celular, oferecendo ideias que me fazia sorrir mentalmente. Aí está o ponto, você me cativa demais e nem sabe. Não sabe porque sou apenas mais uma, e você está com outro alguém na mente, há quilômetros de distância. 

Não sei muito bem como lhe dizer como me sinto. Sou meio Charlie. Sempre estou feliz e triste ao mesmo tempo. Mas, com você, veja só!, sinto-me feliz. Esqueço do que preciso fazer, fico observando a sua janelinha apontar novas mensagens, pensando no que você pode estar pensando. Em que você pensa? Eu nunca sei decifrar, porque sua atitude nunca muda. É sempre gentil, mas displicente. E daí eu não sei se a sua displicência é propositada ou não. Por favor, seja. Ao menos, assim, está fingindo querer distância de mim. Posso conviver com essa falésia entre nós, sempre diminuída alguns centímetros quando você diz "Se cuide!". Eu me cuido, e digo o mesmo a você. 

Tudo isso me acerta como um furacão. Penso em coisas ridículas a todo instante, e sou levada por esse furacão. Estou perdida. Quando você se aproxima e me diz oi, estou perdida. Sorrio, também, como você, mas no fundo estou em pânico. Minha mente bloqueia tudo. Minha mente fica no meio de uma tempestade. E, ainda assim, não sei o que você pensa a meu respeito. Você sabe coisas sobre mim, e eu sei coisas sobre você. Mas nossas conversas são assim: um pêndulo, sempre retornam ao mesmo instante. Então lá vem você se despedindo, dizendo aquele "Se cuide!", e eu fico novamente perdida no furacão. 

De longe, você é um furacão. Eu sou a tempestade. E aquele seu "Se cuide!", diz muito sobre você. E o que acontece agora? Você com suas despedidas, eu com minha confusão diária, nós dois sempre mantendo distância, porque assim é melhor. É melhor, mesmo? Se ao menos eu achasse o meu caminho...

Apenas me mostre o que fazer, com aquele seu "Se Cuide!". Despeça-se, mas não vá. Espere que eu diga para se cuidar também. 

"Se cuide, mocinha". Eu me cuido, sim. 


I hope you like me as I am, Nina. 

17 de novembro de 2013

#Conhecendo a autora Carol Bensimon

Nova coluna no blog, meus amores. 

A coluna se destinará a apresentar a vocês novos autores e, consequentemente, o livro que me fez conhecê-los. 

Bem, eu A-M-O livrarias. Amo ficar lendo as sinopses dos livros nas estantes e anotando seus nomes para, nu futuro próximo, adquiri-los. Não consigo sair de uma livraria sem fazer isso, é questão de ritual de leitora. E foi assim que encontrei a Carol. 

Decidi que a primeira postagem da coluna seria destinada à Carol Bensimon, porque a Carol é daqui de Porto Alegre, minha cidade do coração. Quando soube que a Carol é daqui, eu meio que surtei ainda mais. 

Quem é a Carol?
Nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou contos no jornal Zero Hora e em revistas como Ficções e Bravo!. Estreou com as narrativas de Pó de parede (2008). Sinuca embaixo d’água, romance publicado pela Companhia das Letras, ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária. Defendeu mestrado em Teoria da Literatura e fez doutorado na Sorbonne Nouvelle em Paris. É uma das integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta.

O livro pelo qual morri de amores escrito por Carol foi Todos Nós Adorávamos Caubóis. Quando comecei a ler um trecho da narrativa na contra-capa, achei que seria um romance morno, sem nada a acrescentar. Daí, no final, percebi que havia algo de muito diferente nas personagens e no próprio tema do livro: o par romântico não é menino + menina, mas menina + menina, e toda a essência da trama não seria a mesma, talvez, se Júlia e Cora (as personagens) não se envolvessem em uma road trip pelo no Rio Grande do Sul. 
No site da Companhia das Letras (editora deste livro), está disponível um book trailer, que vocês podem conferir logo abaixo: 


Sinopse: 

Cora e Julia não se falam há alguns anos. A intensa relação do tempo da faculdade acabou de uma maneira estranha, com a partida repentina de Julia para Montreal. Cora, pouco depois, matricula-se em um curso de moda em Paris. Em uma noite de inverno do hemisfério norte, as duas retomam contato e decidem se reencontrar em sua terra natal, o extremo sul do Brasil, para enfim realizarem uma viagem de carro há muito planejada. Nas colônias italianas da serra, na paisagem desolada do pampa, em uma cidade-fantasma no coração do Rio Grande do Sul, o convívio das duas garotas vai se enredando a seu passado em comum e seus conflitos particulares: enquanto Cora precisa lidar com o fato de que seu pai, casado com uma mulher muito mais jovem, vai ter um segundo filho, Julia anda às voltas com um ex-namorado americano e um trauma de infância.


Se você ficou com vontade de conhecer o trabalho da Carol, não deixe de visitar o site oficial da escritora, sua coluna no blog da Companhia e o o começo de Todos Nós Adorávamos Caubóis. 



Avante, Porto Alegre!, Nina.