Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Sem ponto no contraponto

by - outubro 14, 2013

Amélia era três. 
Uma dicotomia entre tudo que era negro e tudo que era colorido. 
Era profunda, também. Mas tão superficial quanto uma crônica mal feita. Amélia tinha uma alma cinza, manchada, porém inescrutável. Ninguém a enxergava - nem sua alma nem sua própria pessoa. Sempre quieta e irrequieta. Não acompanhava a maior parte dos assuntos na escola, porque nenhum deles era simbiótico o suficiente para estarem de acordo com seus amores já falecidos. Todos eles passaram, e Amélia, coitadinha, tão presa no presente, sempre querendo retornar ao ontem. 

Ela era trancada no céu nebuloso e sombrio por seus pais. Eles lhe diziam que era um bom castigo. 
"Você vai aprender dessa vez", eles lhe asseguravam. 
Mas Amélia, sempre tão avoada e tão desprovida desse tipo de curiosidade, nunca aprendia. Ninguém aprende nada com as asas cortadas, a criança pensava. Sempre no alto, tão alto que tinha medo de olhar para a infinitude que se estendia abaixo dela, tudo lhe era arrancado. Estrangulavam seus sonhos, mandavam-na descer. O céu nunca mudava de cor para ela - ao olhar do alto, odiava o cobalto que se confundia com o petróleo e com as construções inacabadas e indistintas. 
Amélia chorava, chorava, chorava. Queria ir mais longe, queria que parassem de sussurrar a Canção dos Mortos - o que mais uma criança pode querer senão a liberdade? Ela queria estar viva, ultrapassar o negrume impalatável de seu cotidiano. Nada tinha gosto para ela, nada estava nos conformes. 
Seu mundo era o lado errado, um código perdido, um amontoado de coisas incolores. Tudo se desvanecia com tamanha facilidade diante de seus olhos pequenos, por trás daquelas lentes de tartaruga - era difícil enxergar. Lavava os olhos constantemente. Queria poder atirar a poeira, o desgosto e a impaciência para aquém de seu mundinho apertado. 

Amélia era três. 
Procurava nas palavras um propósito de vida. Era difícil de se agarrar à realidade, necessitava daquela dimensão que os adultos não viam e pouco entendiam. 
"Isso não existe. Por que não vai brincar na rua?", sua mãe, sempre tão intolerante, respondeu.
Mas a rua não existia. O que existia era o submundo - a idealização do surreal, daquilo tudo que Amélia queria provar e comprovar. Ela acredita nos mais diversos jeitos de sobrevivência. Estar camuflada nos sonhos era um deles. Sua característica sonhadora, entretanto, intrigava os pais. Era tão pequena para desejar coisas que nem mesmo seria capaz de alcançar com muita ajuda! Por que não cessava com as birras desmedidas e com os afrontamentos? Era um horror conviver com a menina Amélia. Nada prático. 

Amélia era três.
Sua insistência irritava quem por ela passasse. Um pouquinho de princesa nela havia. Mas uma pitada tão ínfima que as mulheres que a viam, aquela miudeza de gente, dizia para se arrumar. 
"Cadê seu vestido, criança?".
Mas quem disse que Amélia tinha vestidos? Não tinha nem um trapo, que diria vestidos. 
"Tenho não, sinhora. E não quero coisa feita pra brilhar. Não gosto desses brilhoseiras de vocês". 
Amélia não era uma princesa. E dificilmente seria algum dia. Não nascera para reinar feito gente grande, não. Queria ser dona da própria terra, sim, mas uma terra na qual todo mundo poderia pisar, fosse judeu, branco ou manhoso. As estradas de seu reino seriam decoradas com suas palavras. 
"Pode passar, moço, aqui eu gosto de você também". 
Amélia gostava de quase todo mundo. 

Amélia era três.
Acreditava que gostava de gente como ela. Boazinha, mas não tão boazinha assim. Menininha, mas não tão menininha assim. Capitã, mas não tão capitã assim. Desgostava daquela gente gorda por dentro, do tipo que carregava uma alma tão monocromática quanto a própria. Sua alma nascera assim e a mudaria, se fosse preciso. Mas as almas de toda aquela gente gorda crescera cada vez mais mundana, mais cinza. Tão gordas que pareciam querer se romper. Almas frescas, severas, intolerantes, pés no chão. 

Amélia era muitas, bastantes, infinitas. 
Colorida, negra, incolor. 
Vertentes de um só nome, sem muito rosto. 


~*~

Muitas Amélias pra vocês, Nina. 

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6 comentários

  1. Sabe do que eu mais gosto nos seus textos? A melancolia. Não sei, acho que mesmo quando tiver falando de algo bom, vai ter algo sombrio em volta. rs
    Espero que não entenda mal, porque eu realmente AMO textos assim.
    Amélia, por exemplo, é tão real, tão humana, tão presa. "Colorida, negra, incolor."
    Adorei!!

    Beijos,
    www.miragemreal.com

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  2. Amei *-*
    Eu já te disse isso na faculdade, mas queria registrar aqui.

    Beijos

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  3. "Ninguém aprende nada com as asas cortadas (...)"

    Adorei! To mudando o meu texto preferido conforme vou lendo! hoho
    No momento, é esse!
    Já li toda a seção "Aqui, para sempre" e essa, "Coisas de Amélia", só falta terminar a de cartas. ^^

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Texto... incrível! Acho que é só isso que tenho a dizer... Gostei muito, de verdade!

    http://eueminhacultura.blogspot.com.br/

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  6. Incrível, esplendido, maravilhoso e extraordinário. O modo como colocou a melancolia e as expressões casando-se entre si é magnifico. Não sei nem o que dizer Nina.

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