19 de setembro de 2015

#Resenha de livro: Fake

Desde o começo do ano, eu estava morrendo de vontade de comprar Fake, do autor Felipe Barenco, mas, como esse ano eu tive que maneirar na compra de livros, só pude comprá-lo no mês passado. Depois de ter lido a resenha dele, feita pela Lorena no Marcado com Letras, tive a plena certeza de que tinha que dar um jeito de comprá-lo e, para a minha alegria, alguns dias depois, vi que o livro estava em promoção no site dele. 

Título: Fake
Autor: Felipe Barenco 
Editora: UMÔ - Usina de Criação
Ano: 2014
Páginas: 259
+ 

Comecei Fake sem saber para onde ele poderia me levar por três motivos: 1) o significado no camaleão na arte da capa, 2) o significado do título do livro e 3) o significado do trecho na contra-capa. No início, estranhei bastante a narrativa e o personagem principal, Téo. Especialmente ele não conseguiu me conquistar logo de cara, apesar de, aos poucos, eu me divertir com a narrativa bastante engraçada. 

Téo acabou de entrar na faculdade de Direito, que orgulha especialmente o pai, tem um melhor amigo gay e está tentando revelar sua sexualidade para a família. O modo como o autor abordou o drama vivenciado pelo personagem me deixou bastante feliz, pois ficou muito natural e convincente. Não é nada daqueles chororôs bobos em que há muito sofrimento. Téo, ao contrário de muitos personagens literários gays por aí, aceita e assume sua sexualidade para si mesmo. Não fica lutando contra isso. A partir disso, então, é fácil entender que Téo quer se libertar das amarras familiares. Quando, enfim, conta aos pais a relação entre eles fica estremecida: seu pai passa a tratá-lo com indiferença e sua mãe, uma espécie de capacho do marido, não se pronuncia quanto ao assunto. 
Mas e se eles soubessem? A dúvida perturbadora que me assombrou durante anos caiu como uma tonelada de aço sobre o meu bolo enquanto eu assoprava as velinhas e fazia um pedido. E se eles soubessem... Eles me amam de verdade? Meus pais me amam independente de qualquer preconceito? Será que eles organizariam uma festa de aniversário para o filho viadinho diante de todos os familiares?”.
p. 46 
Nesse meio tempo, ele conhece Davi. A paixão se faz imediata, claro. Na maioria das vezes, eu critico esse tipo de coisa dentro da literatura, pois acredito que existe, à primeira vista, uma atração e/ou curiosidade, mas que somente depois evolui para paixão ou amor. Deixando isso de lado, é bom dizer que Téo se torna um pouco obcecado por Davi. Fica naquela coisa de esperar SMS, uma ligação, qualquer coisa. Como quase nada acontece, Téo segue em frente e, um ano depois, o reencontra. Eu sei, parece milagre, levando em conta que Davi estava no Rio para tentar ser ator e vamos combinar que a cidade é bastante grande, né? A partir do reencontro, eles se tornam bastante próximos e acontecem algumas investidas da parte de ambos. 

Tudo está muito bonito, até que Téo briga com o pai e é expulso de casa, pelo fato de ser gay. Não posso entrar na particularidade desse fato (certo vs. errado), já que sei o quanto é comum que este tipo de ruptura ocorra nas famílias cujos filhos são homossexuais, mas posso dizer que este novo plot conferiu bastante verossimilhança e incentivo na leitura. Ele vai morar com o melhor amigo e tenta seguir a vida. Até que descobre que Davi tem HIV e isso joga todas as suas expectativas morro abaixo, mas decide que vai apoiá-lo. 
“Impressionante como a nossa vida, de uma hora para outra, pode se transformar numa grande merda generalizada. E sem que você tenha noção por onde deve começar a arrumar a bagunça”.
p. 110 
A inserção deste assunto (o HIV) foi muito bem trabalhado e exposto no decorrer do livro. Convincente mesmo. Foi muito bom entender como isso afetou o relacionamento dos personagens (tendo em vista que Davi não queria fazer sexo para não contaminar o Téo) e o quanto falar sobre isso ainda é um tabu. Diversas vezes, o melhor amigo dele o desencorajava a estar com Davi por causa da doença, já que achava que isso o privava de estar em um relacionamento "normal". O próprio Davi, que trabalhava numa loja de roupas, não se arriscava em conseguir um papel em comerciais justamente devido a isso, achava que, se descobrissem que ele tinha HIV, perderia o emprego. 

Téo e Davi são dois garotos, a seu modo, diferentes. Téo é tipicamente um rapaz que condiz com sua idade, mas Davi aparentava ser frágil, pouco decidido e, com certeza, se mostrou muito querido desde o princípio. O namoro deles é muito verdadeiro, há brigas, amor, estagnação assim como qualquer outro namoro. O modo como o relacionamento deles foi narrado é surpreendente. Como eu mencionei antes, eu comecei o livro sem saber para onde ele me levaria e isso foi sensacional. A maneira como tudo foi construído, todas as certezas e convicções, para depois ser destruído com várias pistas e segredos revelados foi a melhor coisa do livro. 

Meu amor por este livro é imenso. Claro, há alguns pontos que deixaram a desejar, como as passagens machistas, misóginas e bifóbicas (que, ok, podem passar despercebidas por muitos, mas como eu luto a favor do feminismo e dos direitos LGBT, sei identificar tais elementos em qualquer lugar). Ainda assim, recomendo a leitura para qualquer pessoa, seja você fã, ou não, da literatura queer). 
“Assim como eu acredito que ninguém escolhe ser gay, ninguém escolhe por quem se apaixonar. Quando você percebe, já era”.
p. 221

Love, Nina :)

15 de setembro de 2015

#Divulgação: O conto da Flor Azul, de Ruh Dias

Acredito em sorte e em destino e, quando eu conheci a Ruh totalmente por acaso no ano passado, percebi que ela seria uma daquelas pessoas que a vida te traz como presente. Vocês já leram sobre ela e sobre o blog dela (Perplexidade e Silêncio) algumas vezes por aqui, justamente porque nós duas compartilhamos muita coisa em comum, como o apreço pela literatura e a vontade de nos tornar autoras publicadas. 
E, como nos apoiamos mutuamente na blogsfera - e fora da blogsfera, já que ela se tornou uma grande amiga -, venho aqui divulgar um conto que foi publicado em duas partes em seu blog. 



Sinopse: 
Há certos pensamentos que fazem nosso cérebro estalar. Tente imaginar um lugar sem a marcação do tempo, suspenso entre o que você pensa ser a realidade e o que você acredita ser um sonho. Tente, ainda, imaginar que neste mesmo lugar, não há som: você caminha no silêncio absoluto das coisas, como o som do universo em seu vácuo infinito e grandioso. Você consegue sentir a grama sob seus pés e caminha, caminha, caminha - sem direção nem motivos.
Depois de imaginar este cenário, adicione uma flor. Uma flor pequena, azul e misteriosa, que será a chave para todas as perguntas que você faz enquanto caminha. Mas isto não significa que você entenderá as respostas.
O Conto da Flor Azul fala sobre os limites da realidade e da fantasia, uma imersão em uma atmosfera onírica que pode ser verdade, como pode ser uma criação. E também fala da nossa libertação pessoal quando nos vemos sem os limites das referências de espaço e de tempo.

***
Parte 1 (que pode ser lida aqui).

Se existe algo que eu adoro é ler uma história que me surpreenda, que me inquiete e me dê pensamento após a leitura. O Conto da Flor Azul, como praticamente tudo que a Ruh escreve em seu blog, me proporcionou isso. Houve muito conforto em me embrenhar na história, pois a ênfase na descrição psicológica é algo que gosto bastante e algo que, mesmo feita em terceira pessoa, me fez gostar da narrativa logo de cara. A personagem não tem nome nem descrição física - e isso é um ponto muito bom, pois deixa para o leitor a imaginação. Tudo que sabemos é que é uma garota, que está num ambiente totalmente inesperado, desconhecido e sem cronologia. Então, ela se depara com uma flor azul e isso provoca uma transformação naquele mundo. 

A personagem me fez sentir acolhida, pois há duas palavras que regem esta parte: a Solidão e o Silêncio. Senti-me muito próxima das sensações descritas - que oscilam entre a precisão e a fantasia - e foi o que mais me chamou atenção. Esta parte tem um tom muito introspectivo e íntimo e foi quase como uma incursão dentro de mim mesma. Há bastante divagações, que apenas enriquecem a trama. Alguns poderiam ler e pensar que não há nada "grandioso" nesta história, no entanto, é na sutileza e na interiorização que tudo acontece. 
"É porque o mundo gira e a vida passa e, se não estamos em movimento, estamos mortos. A vida logo se esvai de tudo aquilo que fica estagnado, à margem dos acontecimentos". 
***

Parte 2 (que pode ser lida aqui). 

Esta segunda parte começa totalmente às avessas. A personagem não está mais no mundo desconhecido, mas numa cama, acabando de acordar. Ou seja, é provável que tudo tenha sido um sonho - ou será que não? 

A forma que Ruh brincou com os apostos realidade vs. sonho foi muito convincente. Como já havia pontos fantasiosos na primeira parte, nesta segunda isso se intensifica um pouco, em especial na transição entre o que ainda é vs. o que pode ser. Sou muito agradecida pela literatura fantástica e O Conto da Flor Azul resgatou elementos deste gênero com muito primor. Se na primeira parte havia ausência do tempo, nesta segunda há uma lembrança constante dele, e apreciei muito os contrastes apresentados nesta sequência. Ela se aproxima bastante da realidade, para então nos jogar novamente na incerteza. E esse jogo constante de dúvidas, de fantasia e de sonho é um elemento encantador, que agrega muita consistência à história. 
“Passara toda sua vida desejando que algo extraordinário acontecesse em sua rotina sem graça, acreditando que merecia vivenciar algo de mágico e fantasioso, sentindo lá no fundo que fora feita para acontecimentos solenes e modificadores da existência. E aquela flor azul era o que havia esperado todos aqueles anos”. 
Gostei muito da oportunidade de conhecer este tipo de literatura produzida pela Ruh, pois tudo o que já tinha lido dela eram textos mais introspectivos, mas que não se baseavam realmente/totalmente na ficção. Se você gosta de fantasia, por favor, vá ler este conto!

Acompanhe o trabalho da Ruh no blog e na página do blog :) 

Love, Nina :)

13 de setembro de 2015

#A imensidão da dor que cabe na saudade*

Eu tava tentando recriar o que sentia e separar todas as coisas, quando tropecei num treco estranho. Isso me transformou em poucos segundos, as lágrimas vieram, mas eu não chorei. Sentei no chão, clamando por perdão e tudo se ajeitou: vi que o treco era o que sobrou do que tínhamos - e nem tínhamos muito, é verdade. Não dá pra querer recriar o pouco numa matéria diferente, porque pouco é pouco. É tipo tentar estender o final de um livro. Ele vai acabar, indubitavelmente, mais dia, menos dia. E a culpa é toda sua se vai sentir remorso pela última palavra lida. Com os sentimentos é a mesma coisa; remorso é o que resta, além de uma tonelada de saudade e silêncios velados.

O remorso fica, porque tudo o que existia antes era coragem. Lewis e eu sabemos que um coração precisa disso, de coragem. E eu ofereci o quanto pude, só pra me sentir feliz, só pra parar de me esconder. Só que ninguém conta que, depois da coragem, vem a decepção. É como pular na piscina: há coragem, então, você pula e, logo depois, se frustra porque a água tá gelada demais. Não sei quem é que invetou esse troço de coragem absoluta, porque quem disse que a gente não tem que esconder umas verdades e nos resguardar? A gente tem que ser morada e abrigo, saber que o outro vai precisar da gente, mas que vamos precisar disso também. Por que todo mundo oferece morada e abrigo e esquece que igualmente precisa dessas coisas? Por que a gente não é capaz de se resguardar por causa de um arroubo de coragem maldita? Quisera eu ser fracasso covarde, assim, eu saberia como me curar. 

A tonelada de saudade permanece - ou será que apenas volta pra gente? - exatamente porque nos pertence. É porque, depois de todo o amor do mundo, a saudade sabe que na gente vai encontrar as melhores lembranças. Saudade sofre que nem gente. Saudade só quer amor. Saudade quer fechar os olhos e pensar em você, tragar você, escolher você. Saudade sou eu na hora de dormir, querendo desatinar meus pensamentos, mas que acaba voltando pro seu nome escrito na areia, sumindo do mapa, sumindo da minha vida. Saudade sabe que você ainda é mais brisa do que furacão, que conhece a calma e reconhece o beijo da dor. Saudade sabe que você teve a melhor parte de mim. Saudade sabe que meu caos casou com a sua poesia, só pra escrever uns textos bonitos por aí, só pra deixar você espalhado por todos os cantos. Só pra eu tropeçar no que tivemos. 

Meu silêncio ainda é constante. Cê ainda deve saber que o mundo me colocou numa caixa vedada e que esperava dela um mar de gritos. Pois eu não gritei, eu fui silêncio. Cê sabe que é difícil ser silêncio no barulho incansável. Então, desculpa se nunca soube o que dizer - não sei ser palavras ao vento, apenas riscos no papel. Eu coleciono letras postas lado a lado, desenhadas em floridos poemas só pra me fazer cura. Não sei dizer, porque sinto demais. Talvez, se eu falasse mais, sentisse de menos, mas cê saberia que não seria eu. Nunca fui boa com mentiras, sou boa com o que mora em mim, esse troço estranho que ninguém define, que só diz ser inexistente. É tudo coisa da minha cabeça, é que eu preciso me esforçar, saber falar, saber me socializar. Só que tô bem dentro da caixa, infinitada no silêncio do meu próprio coração. Quisera eu ser voz quando sou emoção, quisera eu ser luz quando sou escuridão, quisera eu ser raiva quando sou amor. 

Reinvento todo o nó disso tudo e entendo, finalmente, que a dor é uma jornada, daquelas sem volta, como um andarilho à caça de conforto. Dela, apenas fica a imensidão da saudade que ainda cabe em você e todo o meu amor transbordado que se foi para ser a lembrança poética que ainda guardo. 


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*A imensidão da dor que cabe na saudade é uma frase retirada do poema Saudade, escrito pela Isabela Xavier, no livro Livre Mente (saiba mais AQUI). 

Love, Nina :)

8 de setembro de 2015

#Resenha de livro: A vida que ninguém vê

Creio que poucos conhecem a Eliane Brum. Antes de eu ingressar no Jornalismo, confesso que nunca tinha ouvido falar dela. Engraçado que estou estudando na instituição que formou jornalistas atuais renomados (a exemplo dela, do Caco Barcellos e da Mariana Becker) e pouco sei da vida deles. No final do semestre passado, entretanto, tive o imenso prazer de ler A vida que ninguém vê, obra da Eliane Brum, que ganhou como o Melhor Livro no Prêmio Jabuti, em 2007. 

Título: A vida que ninguém vê
Autora: Eliane Brum
Editora: Arquipélago Editorial
Páginas: 205
Ano: 2006

Eliane Brum é jornalista e já ganhou mais de 30 prêmios de reportagem, no Brasil e no exterior. Ela teve muita dificuldade de se encaixar na profissão na época em que fazia a graduação, pois "gostava de olhar, mas não gostava de falar" - gostava de ser invisível. Quando li isso, quase chorei, porque eu me encontro exatamente no mesmo ponto que ela. É difícil estar na área da comunicação quando se é tímida e observadora, portanto, Eliane, de certo modo, me acalentou bastante com sua história. Bem, a situação dela só mudou no último semestre da faculdade, com um professor (#saudadesLeonam) que a fez descobrir a paixão pelo ofício de contar histórias. A primeira matéria que ela escreveu para a aula deste professor concorreu à vaga de um estágio no maior jornal do Rio Grande do Sul (a Zero Hora). Foi assim que ela entrou para o time do jornal e continuou a colecionar mais prêmios (como o Açorianos de Literatura, com a obra Coluna Prestes - O avesso da lenda). 

Escrevi um pouco da biografia da autora, pois é importante para entender a maneira que A vida que ninguém vê foi construído. A obra é uma coletânea de reportagens com uma gritante diferença no que toca à questão da forma com que estas reportagens foram trabalhadas. 

Há uma espécie de convenção dentro do Jornalismo que diz que notícia é quando o homem morde o cão, pois a notícia precisa, digamos, sair do "lugar comum". No entanto, Jornalismo pode ser, sim, feito a partir da ideia contrária: quando o cão morde o homem. E é na segunda proposta que o trabalho jornalístico de Eliane Brum se baseia. Portanto, as reportagens dela, além de derrubarem as barreiras formais da construção de um texto jornalístico (que dá importância à falas de fontes, dados transformados em informações etc), têm traços de crônica e coluna. Ao invés de abordar o que mais "chama a atenção" (seguindo o pensamento o homem morde o cão) - tanto do veículo quando do público -, Eliane conta histórias que, se não fosse pelo seu olhar diferenciado, continuariam invisíveis. É assim que Zés e Marias do Sul do Brasil ganham destaque e atiçam o interesse do leitor. O título de sua obra, portanto, é completamente auto-explicativo. 
“Esse texto poderia acabar aqui, porque tudo já estaria dito. Mas às vezes é preciso contar uma história de mais de um jeito para que seja entendida por inteiro”.
p. 37
Há 23 histórias ao longo do livro, cada qual com um personagem (fonte) inusitado. A princípio, o leitor pode não se interessar pelo personagem, mas o desenvolvimento que a jornalista dá a sua narrativa nos encanta absolutamente. O vocabulário utilizado é notoriamente gaúcho, mas simples, assim como seus entrevistados. O que mais chama atenção é que, em algumas reportagens, há transcrito o diálogo dela com sua fonte e, em vários momentos, a fala da pessoa está intacta (ou seja, já erros de concordância, de gramática etc). Isso proporciona maior proximidade com o personagem sobre o qual Eliane escreve e proporciona, também, toda a "atmosfera" simples da obra. O mais cativante é que o mundo "pobre" que ninguém vê é apresentado de forma muito humana e sensível. 
“Para entender o resto da história que ainda virá é preciso conhecer o que é a morte do pobre. É necessário compreender que a maior diferença entre a morte do pobre e a do rico não é a solidão de um e a multidão do outro, a ausência de flores de um e o fausto do outro, a madeira ordinária do caixão de um e o cedro do outro. Não é nem pela ligeireza de um e a lerdeza do outro.
A diferença maior é que o enterro de pobre é triste menos pela morte e mais pela vida”.
p. 39
Cada história é diferente uma da outra, mas todas são sofridas e acometem sentimentos de compaixão e solidariedade. O legado jornalístico de Eliane é justamente dar rosto e voz àqueles que têm muito pouco ou que carecem de auxílio. As reportagens são corridas, relativamente curtas e o entendimento é bastante fluído. As abordagens são totalmente imparciais e contam as histórias sem edição alguma, ou seja, não há julgamento. Por ter modificado a maneira de enxergar as pessoas, a autora consegue se adentrar muito bem neste universo que quase sempre é ignorado e transmitir a mensagem de que é possível tratar todos com igualdade e respeito.

Cada reportagem é dividida por uma foto que ilustra o personagem abordado. As fotos são um elemento incrível na obra e fazem o papel de "fisgar" o leitor. Impossível não gostar do livro, mesmo quem não tem familiaridade com o texto jornalístico. Recomendo A vida que ninguém vê especialmente pela leveza e humanidade que passa. Eu marquei várias e várias passagens legais para transcrever aqui, mas teria de fazer um post só com elas, então deixo com vocês a que mais resume a obra por completa: 
“Quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz de alcançar a vida do outro. Olhar é um exercício cotidiano de resistência”.
p. 188
Para saber mais sobre jornalistas que se formaram no Sul, dê uma olhada no projeto Filhos da Famecos ;) 

Love, Nina :)

6 de setembro de 2015

#Resenha de livro: Toda Poesia

Desde que eu fiz a primeira postagem do blogagem coletiva, justamente no dia do homem, falando um pouco sobre a biografia e os livros do Paulo Leminski, fiquei me coçando para ler a antologia poética dele. Por sorte, a área literária da biblioteca da minha faculdade é ~linda~ e eu consegui pegar Toda Poesia e relaxar antes de dormir.

Título: Toda Poesia
Autor: Paulo Leminski
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 421
Ano: 2013
+ 

Bem, desde o começo do ano eu me abri totalmente à poesia, o que tem me deixado cada vez mais feliz. Não relutei em ler os poemas do Paulo em momento algum e devo dizer que os efeitos deles na minha vida me deixaram muito bem. Ele tem humor - branco e negro - e, quase sempre, dá para pescar sentidos de leveza em suas palavras. A maioria dos versos é bastante acalentadora. Encontrei-me muitas vezes em certas passagens, por exemplo, e pude "mergulhar" nos sentimentos escritos. Apesar de ele ser um homem, isso quase não fez diferença para mim, pois é muito clara a maneira leve e tranquila que o autor encarava e levava a vida. 

As temáticas dos poemas são bastantes variadas. Toda Poesia é dividido de acordo com a ordem cronológica dos livros poéticos que Paulo Leminski já publicou (mesmo postumamente). Em quase todas as separações há uma nota do editor explicando um pouco de cada livro. Cada "parte" não agrega um só tema, o que dá muita dinâmica à leitura. Você pode ler algo triste numa página e, logo em seguida, algo que te faz rir. Então, o livro não cansa o leitor em momento algum. 




O que me agradou bastante é a forma como os poemas são escritos: não há uma fórmula. Não há rimas em todos (na verdade, a maioria não tem) e poucos seguem aquela forma tradicional que vemos por aí (bastantes estrofes com bastantes versos). A maioria é composta por haikais, de modo que dá pra imaginar que o livro abriga, facilmente, mais de mil poemas (j-u-r-o!). Outra coisa que não se baseia em fórmulas é a questão dos títulos: a minoria deles é titulada. Eu tive um pouco de problemas com isso, pois confesso que gosto de títulos. Mas, como a leitura é muita fluída e agradável, quando havia, percebi que até mesmo acabava pulando de ler a titulação. Cada poema é separado do seguinte a partir de uma marquinha no papel, que se parece muito com uma mancha de tinta (o que achei muito especial e criativo, acho que captou bastante quem era o autor, por exemplo). Toda Poesia traz muitos estrangeirismos e, inclusive, muitos poemas são escritos em outras línguas (latim, francês e inglês). Neologismos são muito vistos no decorrer da leitura, como também a sinestesia. 

A partir dos poemas, dá para entender que Paulo Leminski era um homem muito culto. Ele consegue passar quase todos os estilos poéticos nesse livro, e as partes que abarcam o estilo concreto são as mais interessantes de serem lidas. O concretismo foi um estilo muito forte na época em que Paulo começou a escrever e dá para ter uma ideia da veia vanguadista dele, que, como todo o livro, não segue fórmula alguma. Cada poema concreto é diferente do outro, às vezes, dispõe apenas uma palavra, ou um jogo de palavras - e o leitor que se vire para tirar daquilo o que quiser. 





O melhor de Toda Poesia é rememorar a vida do escritor a partir de sua obra. A apresentação fica por conta da Alice Ruiz S, que foi casada com Paulo, e que é bastante mencionada em alguns poemas. 
“Este livro é antes de tudo uma vida inteira de poesia. Uma vida totalmente dedicada ao fazer poético. Curta, é verdade, mas intensa, profícua e original” – Alice Ruiz S.
 Ao final, pessoas que tiveram contato com o autor dão declarações sobre a relevância da poesia de Paulo, sobre a relação que mantinham e quanto sentem a falta dele. Alice Ruiz volta a ter a palavra em uma parte e o próprio Paulo Leminski tem um espaço (que foi retirado da introdução de um livro dele já publicado). O trecho que mais conseguiu transmitir toda a infinitude da poesia do Leminski foi justamente esse, achei-o perfeito: 
“O poeta que aqui se lê, a exemplo dos faraós, construiu uma obra capaz de continuar falando, por si só, como as pirâmides, e transcender mesmo no deserto a aridez da mesmice da nossa finitude. E essa vida que se mostra, se despe e se despede nos deixa com gosto de mais vida e muito, muito mais poesia, de um jeito tal que, tenho certeza, ainda vai haver poesia um dia” – Alice Ruiz S.
Impossível, para quem gosta de poesia, não amar este livro. Eu estou com muita dor no coração por ter de devolver o exemplar que peguei. Espero, em breve, poder comprar um só para mim, pois sei que sentirei muita saudade de alguns versos do escritor. 




















Love, Nina :)