29 de janeiro de 2017

Hibisco Roxo: poder, violência e repressão

Já fazia bastante tempo que gostaria de ler um romance da Chimamanda Ngozi Adichie, mas não sabia me decidir por qual. O encontro de janeiro do #LeiaMulheres em Porto Alegre me ajudou: Hibisco Roxo. Confesso que não procurei pela sinopse nem fui atrás de resenhas, apenas comecei a ler sem expectativas (porque gosto de me surpreender, seja positiva ou negativamente).


Título original: Purple Hibiscus
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2003 (EUA) | 2011 (BR)
Página: 328
★★★★★ 

O mundo tem a tendência de estigmatizar e generalizar a África. Sabemos muito pouco além da diversidade animal. Não sabemos sobre especificidades como, por exemplo, que é um país exatamente como o Brasil, cada região tem o seu estilo de vestimenta, o seu prato típico, o seu modo de falar. Desconfiamos que a riqueza está nas mãos de poucos, mas quem são esses poucos? Não sabemos. E Hibisco Roxo tem essa força de conhecimento, de ir além de muros oceânicos e preconceitos étnicos. 

A curiosidade de mergulhar na cultura nigeriana foi o que, do começo ao fim, me fez aproveitar a leitura com tamanha paixão. O leitor se depara inúmeras vezes com palavras em igbo (dialeto nigeriano). Além disso, os pratos são muito mencionados, assim como tubérculos e especiarias - e nenhuma vez a autora explica como cada comida é feita. Ela entende que, ainda que cause estranhamento, sua literatura não é, de forma alguma, um beabá africano. Os nomes das personagens, salvo alguns, também causam estranhamento, pois a pronúncia pode frustrar - mas não significa que atrapalhe a leitura. 

Hibisco Roxo é narrado por Kambili, uma garota rica de quinze anos. Mas ela não é, de forma alguma, americanizada (ou seja, não é a vilã da escola, não se acha superior e muito menos gosta de aparecer). Kambili é o que podemos dizer ser uma adolescente infantilizada, especialmente pela super-proteção, repressão e autoritarismo de seu pai. Ela tem um irmã mais velho, Jaja

O pai deles, chamado de Papa, é um homem extremamente machista dentro de seu núcleo familiar, no entanto, é tido como um "salvador" para a comunidade. A construção desta personagem é algo inigualável e único. A grande palavra para descrevê-lo e, também, as relações que permeiam o livro é poder. O livro nada mais é do que as dimensões que o poder pode ter, especialmente o religioso. Papa e sua irmã, Ifioma, são nigenianos católicos. Papa é, basicamente, um fundamentalista e grande adorador do colonizador (a Inglaterra). Rejeita de todas as formas suas raízes africanas: fala inglês, toma chá, apoia e quer o bem somente de pessoas convertidas. Rejeita, inclusive, o próprio pai, pois é "pagão" e segue a tradição religiosa nigeriana. Algo gritante sobre Papa, além de sua riqueza econômica, é sua violência para com sua mulher e seus filhos. É algo que, do começo ao fim, me chocaram e me repugnaram - tanto que, diversas vezes, eu tive que parar a leitura. As cenas de violência física, aos poucos, ganham maior elaboração textual. Mama, a mãe, sofre vários abortos ao longo do livro, como punição física de seu marido.

O cotidiano desta família é regrado, como assim Papa quer. Kambili e Jaja têm horário para tudo e, basicamente, vão da escola para casa, da casa para a escola. Têm liberdade nula. Mama, podemos imaginar, vive somente para a família. No entanto, a rotina muda, finalmente, quando os adolescentes passam alguns dias no apartamento da tia Ifioma. Ela é uma professora universitária da classe média que tem três filhos e mal consegue colocar comida na mesa, pois a universidade federal está um caos - falta de recursos financeiros, falta de professores bons, falta de alunos com afinco. Apesar de ela e Papa terem recebido a mesna educação numa escola católica, o caminho deles foi completamente diferente. Ifioma é uma mulher combativa, em prol da liberdade e muito justa. Ela é a única que enfrenta Papa e que não tem medo de fazê-lo. Nesta casa, Kambili e Jaja se deparam com outra realidade, muito autônoma, participativa e saudável. É na presença de Ifioma, seus primos e um padre, que Kambili, aos poucos, se desfaz de suas amarras.
– Você acredita nesses meninos – eu disse num impulso.
– Acredito – disse ele, me observando – E preciso acreditar neles por mim mesmo, mais até do que eles precisam de mim para acreditar em si mesmos. 
– Por quê?
– Porque preciso acreditar em algo que eu jamais questiono. 
Ela é uma garota que não se expressa verbalmente e encontra dificuldade em se relacionar com o exterior. Quando voltam para casa, o leitor entende o quanto o choque de realidade proporcionou às personagens, uma vez que a dicotomia entre o amor e o medo (de Kambili por Papa) acontece. Existe uma adoração nem um pouco saudável que permeia a família e que cala as vozes de todos. Era a partir da adoração que Papa era visto como alguém que estava fazendo o certo, ainda que machucasse fisicamente a todos. O poder que ele exercia começa a ruir, ainda que o amor continua. 

Jaja é um garoto que, de início, sabemos que não é nada parecido com a irmã. Ainda que também seja alguém submisso, notamos a revolta a situação. Talvez por não querer se parecer com o pai, ele começa a se afastar de diversos rituais que os enlaçam. Ele é consciente de que, logo mais, será o homem da casa e que ainda não teve oportunidade de provar isso, uma vez que seu pai está sempre no controle. É também com tia Ifioma que ele entende que precisa, o mais rápido possível, começar a assumir a casa. 

A surpresa que tive ao ler Hibisco Roxo foi ótima. Sofri diversos 'choques' ao longo da narrativa. A narração é algo esplêndido, pois releva tudo muito aos poucos e de forma bastante diferente, bem mais de acordo com a maturidade da narradora (Kambili) do que com a necessidade das situações descritas. A apatia da narradora, seus questionamentos internos, seus conflitos e suas descobertas são encantadoras. A inocência e a imaturidade da personagem é coisa que ora irrita e ora nos faz entender o quanto a realidade dela é opressiva. Ela é alguém uniforme, mas que, aos poucos, se desprende e começa a lutar pelo que quer.

A história é singular de um modo sensacional. Conquista por diversos fatores: culturais, conflitivos e sentimentais. Qualquer resenha que eu tente escrever não chega nem perto de tudo o que passou na minha cabeça enquanto fazia a leitura. 

Para mim, apenas há um único ponto negativo, que foi o desenrolar do final. Achei pouco inteligente, na questão puramente literária, que a autora tenha se livrado do conflito central de uma forma tão óbvia. O final, para mim, perdeu muito da força que havia antes e terminou de uma forma minguada e praticamente sem emoção. Ainda assim, não compromete o desenvolvimento de todas as questões debatidas anteriormente. 

Um livro extremamente rico, convincente e arrebatador.

– Você pode fazer qualquer coisa, Kambili.

. . .

Ontem (28 de janeiro), aconteceu o encontro para debatermos a história, dentro do projeto #LeiaMulheres. Foi num local bem alternativo, com pessoas bem diferentes e com opiniões incríveis. Foi uma experiência muito gratificante e única <3

Sim, homens foram super bem-vindos! :)

Love, Nina :)

26 de janeiro de 2017

Antologia Valquírias: as vozes femininas na literatura fantástica

As autoras Fernanda Castro e Marcia Dantas são as idealizadoras e organizadoras desta compilação mais do que necessária na literatura. Se alguns acreditam que mulheres apenas sabem escrever histórias voltadas ao sentimento e ao romance, na antologia Valquírias se manisfesta outro tipo de crença, a de que mulheres podem ser quem quiserem, inclusive guerreiras, heroicas, decisivas e criativas. 


Título: Valquírias - antologia
Organizadoras: Fernanda Castro e Marcia Dantas
Editora: Darda Editora
Ano: 2017
Páginas: 130
★★★★★❤ 

Os vinte contos passam ao leitor a atmosfera ora de um tempo distante, ora de um tempo paralelo. O gênero fantástico, produzido por mentes femininas, ainda é bastante invisibilizado na literatura. Não basta apenas conquistar lugar, aliás; vai além de apenas estar ali: manter-se no status de escritora de fantasia é constantemente ter de re-afirmar sua credibilidade. 

Os tons das histórias variam constantemente, indo de ambientes inóspitos a reinos incríveis. O protagonismo feminino é marcante, belo e diverso. Entre as protagonistas há bruxas, Valquírias, elfas, Deusas, Rainhas e criaturas místicas cujas habilidades são fortes, enigmáticas e fantásticas. Nos mundos em que foram criadas, elas são alguém. Mesmo quando outrem tentam anulá-las, continuam se re-afirmando enquanto mulheres e enquanto mulheres poderosas. 

Apesar de eu fazer parte desse incrível e fantástico time de escritoras, decidi escrever uma resenha como leitora - como alguém que pudesse estar de fora do enfoque. Conforme a leitura avançada, mais encantada eu ficava. A criatividade de cada história me fez perceber o quanto existem mulheres que têm muito a oferecer e que, talvez, pela falta de oportunidade ainda não puderam visibilizar suas palavras. Ainda não puderam ser vistas como mulheres escritoras. Cada personagem é única, marcante e não tão idealizada, como poderiam ser. Não são princesas vivendo de forma morna, ou camponesas à espera de seus últimos dias. Não: todas elas têm vozes e as usam em prol de quem são e, por vezes, em prol de suas iguais. 

A ideia de que mulheres na fantasia precisam ser as coadjuvantes ou as indefesas não existe aqui, pois lutam por si mesmas, enfrentam o desafio e as normas. A antologia Valquírias oferece a essas mulheres uma história que não seja às custas de um homem, ou de uma storyline principal. Essas mulheres são a storyline principal, pois são donas de seus destinos, suas armas, seus poderes e suas mentes. 

A seguir, falarei de cada conto, porque seria injusto ter de escolher meus preferidos quando estou tão agradecida por ter conhecido escritoras tão incríveis. 

Se as bruxas não lutam, elas queimam, Ana de Oliveira
Como o próprio título sugere, o conto se esmera em mulheres que, no tempo descrito, subverte as normais sociais. Eyria é a protagonista que, juntamente com outras mulheres, está aprendendo a se livrar de homens abusivos a partir da leitura, escrita e cálculo. A certa altura, elas precisam usar suas inteligências para se defenderem do destino. Acho que esse é o conto que mais tem diálogos, o que me incomodou um pouco, mas a história e a mensagem supriram qualquer ponto negativo. 

Dama de gelo, Anelise Vaz
Yuuki é, como o título já diz, uma dama do gelo. A bondade e a benevolência dela é bonita e tocante, oferecendo, apesar de magia, muita humanidade. O que mais me surpreendeu foi o fato de a protagonista ser asiática. Gostei muito dessa diversidade étnica, difícil de ver em histórias nacionais. 

A conjuradora de almas, Dayanne Fernandes
Clarice tem uma missão e, com a ajuda de um atravessador, pode aniquilar mais demônios pelo mundo afora. Gostei das funções dos personagens e, apesar de o conflito ser usual, creio que a autora conseguiu dar novos rumos ao final. 

O outro lado da maçã, Deh Mundin
Um dos meus preferidos. O conto é narrado em primeira pessoa pela "Rainha Má" - que, aqui, se releva não tão má assim. Bastante bem-humorado e impessoal, tem o tom certo para entreter e encantar. A autora conseguiu ir além da releitura, a meu ver. Ela re-construiu diversos padrões sociais, como o amor de mãe x filha e o amor entre iguais. 

Skuld assiste a uma batalha, Fernanda Castro
Outro preferido. Temos aqui três personagens femininas: Skuld, Hyeda e uma garota indefesa, sem nome. O conflito do conto é emocionante, muito bem desenvolvido e tem muita força. Mexe com quem sabe os perigos de se nascer mulher. 

Tecelões, Hannah H.
A ideia é bastante original, sobre irmãs que tecem linhas de energia mística em tudo e todos. Mas creio que o desenvolvimento se perdeu em diversos momentos, tornando-se bastante confuso. A linha de tempo é gradativa, no entanto, os momentos são colocados de forma abrupta, o que me deixou confusa diversas vezes. 

Coisas vivas, L. Codu
Outro preferido, sobre duas irmãs: a Vida e a Morte. A Morte está apaixonada por uma humana e sabe que, eventualmente, terá de atravessá-la e matá-la. A história é bastante tocante e a autora conseguiu imprimir emoção nas palavras.

Kelpie, Luciana Darce
O que mais gostei nessa história foram as criações místicas e mitológicas. O tom do conto me fez viajar para terras mágicas e atemporais. Cavalos marinhos mágicos são os protagonistas, que se metamorfogam em humanos. Oferece um laço emocional muito bonito.

A última batalha, Marcia Dantas
Ambientado numa batalha, conta sutis emoções de Ágatha para com Helena, duas amazonas. O sentimento se mistura com razão e valentia de uma forma harmônia e bonita.

As filhas da Lua, Mariana Chiaverini
O início é extremamente inebriante e a história ganha força à medida que a protagonista Diana revela sua nova vida e as transformações mágicas que lhe aconteceram. Temos aqui mulheres lobas. O que me ganhou foram as descrições da personagem quanto às transformações e emoções.

Não tenha medo, Mariana Dantas
Esse conto me intrigou bastante, o que não me fez adorá-lo menos. Angélica é uma garota que tem muitas mágoas de situações e pessoas do passado e à medida que a história cresce, vai se tornando uma criatura menos humana e mais desprovida de boas emoções. Gostei dele devido, especialmente, à camada que a personagem ganhou, que, de vez em quando, me lembrou a depressão. 

A espada de gelo, Mariana Jaques
Kai é detentora de uma arma poderosa, uma espada com uma virtude única. E, agora, pessoas estão atrás dela. A história poderia ser bastante comum, se não fosse o aparecimento de uma segunda mulher na trama. A meu ver, esta nova personagem deu outro tom ao conto, algo mais próximo da união feminina. 

O santuário de Liara, Mayara Barros
Se não fosse uma personagem, que nem é muito mencionada, o conto poderia ser apenas de época, não propriamente fantástico. Entretanto, a história funciona, porque aguça o laço da irmandade e o amor fraterno. O propósito da protagonista Liara é bonito e convincente. 

A rainha de fogo, Melissa Araújo
Aecida, agora, é rainha e deve governar seu reino junto com o marido. No entanto, ela ignora o fato de que há pessoas perigosas ao entorno das fortalezas. Se não fosse uma cena, completamente repugnante para quem é mulher, o conto não teria a força que conquistou ao final. A autora foi muito corajosa por inserir a cena e ela cumpre seu papel de forma clara e objetiva. 

Entre as cinzas e o fogo, Nina Spim
Íris sabe que tem um destino e precisa passar pela primeira prova para continuar sendo quem é. O conto é meu, então, não posso dizer nada além de uma sinopse curta. Espero que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Aquilo que permanece, Raquel Mota
O meu preferido, dentre todos os preferidos. Apesar da atmosfera fantástica não ser muito presente (a história parece somente sobre personagens de um reino), o conto me conquistou muito, porque é o que, do começo ao fim, quebra com as normas vigentes sobre as mulheres, relacionadas ao que se esperava (e ainda se espera) delas. A autora combate a ideia de que as mulheres precisam se casar, idolatrar seus maridos e fazer filhos com eles. A emoção que nasce entre as personagens é singela, mas convincente e bastante presente.

A batalha de Freya, Ruh Dias
Apesar de não ser ambientado em uma batalha, também conta a história de Valquírias. A protagonista Freya é a responsável por suas guerreiras, mas, depois de tanto tempo na posição, acha que é hora de descansar e dar oportunidade à outra Valquíria. O conto conquista pelo sentimento de liberdade. É bastante maduro e oferece uma versão bem menos violenta e muito mais racional e humana das deidades. 

Fogo escarlate, Sephira Takeo
Akenehi é filha do xamã de sua tribo, mas recebe uma tarefa dele e acaba por ter de tomar decisões por conta própria para cuidar de si mesma e seus iguais. Apesar de não mencionar a etnia com todas as letras, fica subentendido que há diversidade étnica neste conto - e isso é enriquecedor. 

Entre o amor e a glória, Tatiana da Cunha Domingues
Elfos são conhecidos, na mitologia, por serem ótimos guerreiros e Vesyl é ótima com uma espada e um arco e flecha. Mas ela acaba conhecendo um meio-elfo, que consegue abalar seu coração. Apesar disso, não fica cega de amor e não esquece de suas raízes e deveres. Gostei desse conto justamente pelos personagens serem elfos, criaturas que ainda não tinham aparecido até então. 

Há um prefácio da autora e ilustradora Aline Valek, que encanta antes mesmo de mergulharmos nos contos. A revisão, de modo geral, é mediana, apesar dos erros não serem constantes. A diagramação é bastante simples, mas cumpre o papel, é agradável e bem feita. Ainda acredito que o conceito da capa é confuso e contraditório, porque parece que as personagens estão brigando entre si, o que não favorece o propósito da antologia, que é justamente promover uma espécie de irmandade. Ainda assim, é harmônica (embora a monocromia possa incomodar um pouco) e chamativa - não lembro de ver algo parecido em romances fantásticos, por exemplo. 

. . .

O lançamento oficial da antologia Valquírias será dia 05 de fevereiro, mas exemplares já podem ser adquiridos AQUI. 










Love, Nina :)

22 de janeiro de 2017

#Resenha de seriado: Desventuras em série

O único seriado que já resenhei no blog foi Faking It, em 2014. Apesar de já ter acompanhado (e acompanhar) alguns, tenho tantos outros posts para fazer que tudo o que gostaria de resenhar acaba não entrando na programação.

Assisti Desventuras em série no fim de semana passado e percebi que valia a pena re-organizar meu cronograma para resenhá-lo. Acho que quase todo mundo sabe que é inspirado nos livros de Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler. Os livros foram publicados no Brasil entre 1999 e 2006. Um filme foi produzido em 2004, mas unia apenas as histórias dos três primeiros livros.


Título original: A series of unfortunate events
Diretor: Barry Sonnenfeld
Duração: entre 42 e 64 minutos
Ano: 2017
★★★★★ 

Começo a resenha, de fato, dizendo que eu adoro bastante o filme. Quando foi anunciado que a Netflix planejava o seriado, confesso que não gostei. E continuei não gostando até depois do Neil Patrick Harris ser divulgado como Conde Olaf. Não sou fã de How I Met Yout Mother e conheço muito pouco do trabalho do Neil. E, claro, eu achava que não tinham como construir o personagem do Olaf de outra maneira senão daquela caricata e exagerada. 

Preciso dizer que o Conde Olaf é a segunda melhor coisa do seriado. Não é engraçadão, exagerado e sem sentido. Esse Olaf é muito mais próximo do personagem original: cruel, sombrio e ganancioso. Existem cenas em que é engraçado, para dar aquele alívio cômico, porque, afinal, a narrativa como um todo mescla drama com descontração - não é para ser algo maçante, senão espantaria o público. De modo que o seriado, de forma geral, conseguiu ser bastante fiel aos livros - à sua proposta, à sua condução dos fatos e à sua atmosfera. Definitivamente, o que os órfãos Baudelaire vivem nos oito episódios são desventuras em série. 

Já que mencionei os órfãos, os três também estão muito mais autênticos, com muito mais características originais. Violet é a garota engenhosa e fiquei muito feliz por vê-la amarrar os cabelos com frequência. Klaus é muito mais o rato de biblioteca que sempre imaginei que deveria ter sido no filme. E Sunny tem papel mais presente em muitas cenas, apesar de ser um bebê. Os três personagens foram muito mais cavados, muito mais revelados nesta adaptação. Fica evidente cada uma de suas características, manias e lembranças do passado. Funcionou, também, o fato de terem escalado atores que condizem com as idades dos personagens. Algo que me encantou foram as cenas em que Klaus ou Violet citam autores, filósofos e estudiosos, finalmente dando a entender o amor que sentem por bibliotecas e pelo estudo. No filme, achei que isso ficou completamente de escanteio. 

A primeira melhor coisa do seriado é o próprio Lemony Snicket, que participa e interfere nas cenas. No filme, ele parece meramente o relator da história dos Baudelaire, mas no seriado percebemos que ele tem papel ativo na narrativa: ele não somente conhece as crianças, como também todo o passado delas e de seus pais. Eu não me recordo se, nos livros, ele tem esse papel de narrador-personagem (pois faz pelo menos nove anos que os li, sendo que parei no quinto), mas achei essa inserção simplesmente genial e muito cativante. É o Lemony que, muitas vezes, dá o tom das próximas cenas, ora sendo engraçado, ora oferecendo informações valiosas, ora enganando o espectador.

Eu compreendo que as mídias são diferentes. Não dá para contar os 13 livros em duas horas. E, desse modo, o seriado cumpre incrivelmente essa função. A cada dois episódios, ele se dedica a narrar um livro - até então, temos uma temporada completa, com oito episódios, portanto, quatro livros já foram narrados. Como os três primeiros livros já são bastante conhecidos, por causa do filme, os episódios sobre eles não ofereceram muita informação nova. O ponto positivo, entretanto, são as informações não-óbvias, as que não compõem a storyline principal. A atenção é primordial, pois os episódios deixam muitas "pontas soltas" para serem complementadas em cenas posteriores. 

O desenvolvimento da narrativa, apesar de arrastada no início, começa a fazer sentido quando todas as informações, de todos os plots, se convergem. Ainda assim, o último episódio da primeira temporada não termina com "cara" de final - feliz, seguro ou bom. Termina na medida certa, fazendo com que queiramos saber muito mais e continuar a acompanhar as infelicidades dos órfãos e a ganância do Conde Olaf. 

Termino dizendo que me surpreendi bastante com o tanto que adorei o seriado. A abertura já é algo que nos ganha logo de início (e fica na cabeça por algum tempo, hahaha), mas os personagens são, sem dúvida alguma, a riqueza da produção. Cada ator conseguiu incorporar seu personagem de forma crível, graciosa e apaixonante. 

É melhor vocês (não) olharem! ;)






Love, Nina :)

15 de janeiro de 2017

#Resenha de filme: Sing Street

Esse filme foi uma indicação da Cecília, do Blog Refúgio. Por tratar de música (o próprio título já sugere), deixei na minha lista e, alguns dias depois, assisti muito despretensiosamente. E foi uma ótima surpresa :)


Título: Sing Street
Diretor: John Carney
Duração: 1 hora e 46 minutos
Ano: 2016
★★★★★ +

Vocês têm que entender que qualquer narrativa que traga a música como proposta já me ganha totalmente. Não à toa que Once (Apenas uma vez) e Begin Again (Mesmo se nada der certo) se tornaram filmes adorados por mim - tanto no quesito da storyline quanto da trilha sonora. Tenho uma "métrica" para saber quão bom um filme sobre música é: se sinto vontade de ouvir a trilha sonora. Até hoje ouço as trilhas de Once e Begin Again. E, com certeza, a de Sing Street entrou para a minha seleção de playlists preferidas. 

Sing Street pode parecer um filme adolescente, porque é protagonizado por adolescentes, mas vai muito além disso. O que mais adoro em tramas adolescentes (livros e filmes) é que são subestimadas e, de repente, te surpreendem infinitamente. É por isso que fico muito decepcionada com pessoas que dizem que YA's são bobos e não-profissionais. O filme não conversa apenas com o universo adolescente, mas oferece questões universais. 

A família de Conor, o protagonista, está falindo a cada dia financeira e afetivamente. Seus pais brigam a todo momento, à princípio por causa de dinheiro. É assim que ele descobre que eles não têm mais condições de mantê-lo na escola em que está e, desse modo, começará a frequentar a antiga escola de seu pai, que é muito regrada e apenas para garotos. Nesse novo lugar, Conor é o garoto esquisito que não se encaixa e rapidamente começa a sofrer bullying. Dias depois, ele se junta a um colega também excluído e, juntos, planejam começar uma banda com o único intuito de agradar uma garota. A garota é Raphina, que de diz modelo e que tem um namorado. 

Mas a música começa a acontecer de verdade, apesar de Raphina. Conor faz amizade com outros garotos e, juntos, produzem letras, melodias e clipes. A banda é totalmente amadora - e esse é o intuito. É isso que chama atenção na trama, também. São adolescentes, na década de 80, ouvindo bandas como A-ha, Duran Duran e The Cure, tentando fazer com que suas referências se tornem algo autêntico. 

As bandas reais, que aparecem em clipes em TV's antigas, fazem parte de forma ativa do filme; não estão ali para cobrir espaços vazios, pelo contrário: os garotos da banda se "transformam" nos integrantes, copiando seus visuais. Há maquiagens, cabelos arrepiados, cabelos descoloridos, chapéus, roupas pretas. Nesse aspecto, o filme tem um super ponto positivo, que te faz querer continuar a vê-lo para saber quais são as próximas referências musicais. 

Mas Sing Street não é apenas sobre música ou como conquistar uma garota. É sobre família, sonhos e arte. E é a partir da música que todas as outras questões se inserem naturalmente na storyline: a repressão versus a liberdade, a mentira versus a verdade e a decepção versus o amor. Conor tem muito o que descobrir sobre si mesmo e seu irmão. Raphina tem muito o que descobrir sobre confiança e liberdade. 

Falando especificamente de Raphina, embora sua inserção seja clichê, o desenvolvimento do seu relacionamento com Conor é convincente. Gostei de entender que, a certo ponto, ela é irrelevante para que Conor fizesse música. É claro que o processo criativo dele é voltado para ela, mas não se prende ao que ela tem a dizer de sua música. De repente, o que era apenas uma distração se torna uma salvação. É a música que mantém Conor na escola e faz procurar o irmão para referências musicais. É interessante notar essa essencialidade que as canções têm em sua vida, pois ele acredita no que faz. E isso, na narrativa, é muito importante. Isso segue o sentido de sonhar, buscar mudanças e se desprender das dependências afetivas. 

Como eu disse acima, Sing Street não é sobre adolescentes - o filme se relaciona muito mais com o nosso lado esperançoso e libertário, o lado universal de quem precisa se agarrar a alguma crença para ir adiante. O filme é encantador e surpreendente, pois consegue fazer com o que espectador se identifique e cante muito junto. É um filme que renova a gente, acima de tudo.

Você pode ouvir a trilha sonora completa (inclusive as músicas compostas para a banda fictícia) AQUI. Spoiler: o Adam Levine tem uma música na trilha e fico me perguntando qual é o filme do qual ele participe que eu não vou amar.



Love, Nina :)

8 de janeiro de 2017

#LeiaMulheres 2017


Em 2016, eu conheci e participei do projeto Leia MulheresEu cresci lendo mulheres. Possivelmente, hoje, 80% da minha estante é composta por mulheres. Não significa que eu veja um livro e o segregue pelo gênero autoral. Eu não escolhi ler, majoritariamente, mulheres. Isso foi acontecendo ao longo dos anos. Sim, eu leio homens e acho que eles são incríveis no que escrevem. 

Mas uma breve história verídica: a J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, foi orientada por seu editor a não mencionar seu primeiro nome, pois "garotos não leem mulheres".

Não é bobagem. Acontece e muito. Toda hora uma mulher escritora é silenciada - seja na supressão de seu nome verdadeiro, seja em seu conteúdo, seja em seu gênero narrativo, seja em festivais literários. 

Neste ano, eu fiz uma pesquisa usando esse post das Valkirias e esse, d'AzMina para conseguir chegar a uma lista de autoras para a meta. Depois de escrita, percebi que o "mote" desse ano é ler mulheres que nunca tinha ouvido falar. Apesar de conhecer três delas, a maioria eu nem ao menos sabia da existência! Outra coisa que percebi esse ano é que a lista está mais diversificada. Há mais mulheres brasileiras, mas também uma africana e uma indiana <3

Não conheço a Maria Giulia Pinheiro, nem seu trabalho. Nunca ouvi ninguém mencioná-la. E foi justamente por isso que ela está na minha meta. Alteridade é um livro sobre uma mulher. É sobre o estupro e as várias formas de violência feminina. Se a temática já não tivesse me convencido de cara a lê-lo, tem um bônus: é um poema-conto-dramático. Fiquei muito curiosa para ler uma história permeada por mais de um gênero narrativo. Achei a proposta incrível e única. 

Conheci a Martha Batalha muito recentemente, a partir da página da Companhia das Letras, por causa das postagens sobre este mesmo livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão. A capa dele me remeteu a um gênero que não é o proposto, mas ao ler a sinopse entendi que a narrativa é tão real e próxima, que o coloquei imediatamente na minha lista e, posteriormente, o adicionei nesta meta. O protagonismo que a autora pretende dar às mulheres "belas, recatadas e do lar" do século XX é muito necessário e convincente

Lubi Prates é outra escritora que eu não conhecia. No entanto, quando soube que Triz é composto por poemas me ganhou na hora. A temáticas também me atraíram bastante: busca pelo seu lugar (social e de fala), distâncias, deslocamentos, amor e desamor. Parecem versos fortes e suaves ao mesmo tempo, algo que me encanta muito na poesia. 

A Maria Luíza Mendes Furia é mais uma autora desconhecida por mim. O título Vênus em Escorpião me chamou atenção de cara (e eu achei muita graça), porque, segundo meu mapa astral confirmado por um amigo, meu Vênus é em Escorpião *insira aqui muitos risos* *insira aqui muita sofrência, também*
Outra obra de poesias, então, me convenceu de vez a lê-lo. Temáticas como a natureza, a saudade e o erotismo compõem os poemas. 

Eu não acompanho as carreiras de mulheres da música pop, então, nunca soube que Warsan Shire escreveu a maioria dos textos do álbum "Lemonade", da Beyoncé. O que me convenceu a ler Teaching my mother how to give birth foi o fato de não existir tradução, existe somente em inglês. Faz pouco tempo que tenho me aventurado a ler poesia em inglês (tudo culpa de uma escritora indiana-africana sensacional chamada Yrsa Daley-Ward; recomendo fortemente Bone), mas quero demais continuar com isso em 2017. A literatura de Warsan é permeada de suas experiências com a feminicidade, a negritude, o deslocamento e o pertencimento diante da realidade da diáspora africana.


Talvez você já deve ter visto alguns poemas da Rupi Kaur no Instagram. Algumas páginas no Facebook também têm compartilhado fotos do livro Milk and honey, apesar de não dar créditos à autora (e nem ao menos saber que ela é uma mulher!!!!). Eu a conheci há vários meses, totalmente ao acaso, enquanto fazia algumas pesquisas pela Amazon. Desde então, as poesias dela têm me dado várias perspectivas e muita coragem para continuar vivendo e amando a vida. Ela se expressa a partir de versos reduzidos, mas que nos tocam com muito delicadeza. Escreve sobre a vida, o amor, o desamor, desilusões, felicidade, solidão. A Rupi está nesta lista, pois quero, finalmente, ler a obra na íntegra. A Planeta de Livros Brasil vai lançá-lo ainda este mês (pensa numa pessoa muito feliz!!!).


Não dá para saber quem é a Una (fui atrás de biografia e fotos, mas cadê?), mas em Desconstruindo Una, a realidade dela é exibida ao leitor em forma de quadrinhos. Durante boa parte do ano passado, essa HQ esteve aparecendo para mim em promoções, mas, devido ao preço meio salgado, não comprei. A temática, que expõe o silenciamento das vozes femininas na sociedade, sempre me atraiu na história e é justamente por isso que a obra está aqui. 

///

Que mulheres escritoras vocês querer ler esse ano? Vamos trocar dicas!

Love, Nina :)