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Hibisco Roxo: poder, violência e repressão

by - janeiro 29, 2017

Já fazia bastante tempo que gostaria de ler um romance da Chimamanda Ngozi Adichie, mas não sabia me decidir por qual. O encontro de janeiro do #LeiaMulheres em Porto Alegre me ajudou: Hibisco Roxo. Confesso que não procurei pela sinopse nem fui atrás de resenhas, apenas comecei a ler sem expectativas (porque gosto de me surpreender, seja positiva ou negativamente).


Título original: Purple Hibiscus
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2003 (EUA) | 2011 (BR)
Página: 328
★★★★★ 

O mundo tem a tendência de estigmatizar e generalizar a África. Sabemos muito pouco além da diversidade animal. Não sabemos sobre especificidades como, por exemplo, que é um país exatamente como o Brasil, cada região tem o seu estilo de vestimenta, o seu prato típico, o seu modo de falar. Desconfiamos que a riqueza está nas mãos de poucos, mas quem são esses poucos? Não sabemos. E Hibisco Roxo tem essa força de conhecimento, de ir além de muros oceânicos e preconceitos étnicos. 

A curiosidade de mergulhar na cultura nigeriana foi o que, do começo ao fim, me fez aproveitar a leitura com tamanha paixão. O leitor se depara inúmeras vezes com palavras em igbo (dialeto nigeriano). Além disso, os pratos são muito mencionados, assim como tubérculos e especiarias - e nenhuma vez a autora explica como cada comida é feita. Ela entende que, ainda que cause estranhamento, sua literatura não é, de forma alguma, um beabá africano. Os nomes das personagens, salvo alguns, também causam estranhamento, pois a pronúncia pode frustrar - mas não significa que atrapalhe a leitura. 

Hibisco Roxo é narrado por Kambili, uma garota rica de quinze anos. Mas ela não é, de forma alguma, americanizada (ou seja, não é a vilã da escola, não se acha superior e muito menos gosta de aparecer). Kambili é o que podemos dizer ser uma adolescente infantilizada, especialmente pela super-proteção, repressão e autoritarismo de seu pai. Ela tem um irmã mais velho, Jaja

O pai deles, chamado de Papa, é um homem extremamente machista dentro de seu núcleo familiar, no entanto, é tido como um "salvador" para a comunidade. A construção desta personagem é algo inigualável e único. A grande palavra para descrevê-lo e, também, as relações que permeiam o livro é poder. O livro nada mais é do que as dimensões que o poder pode ter, especialmente o religioso. Papa e sua irmã, Ifioma, são nigenianos católicos. Papa é, basicamente, um fundamentalista e grande adorador do colonizador (a Inglaterra). Rejeita de todas as formas suas raízes africanas: fala inglês, toma chá, apoia e quer o bem somente de pessoas convertidas. Rejeita, inclusive, o próprio pai, pois é "pagão" e segue a tradição religiosa nigeriana. Algo gritante sobre Papa, além de sua riqueza econômica, é sua violência para com sua mulher e seus filhos. É algo que, do começo ao fim, me chocaram e me repugnaram - tanto que, diversas vezes, eu tive que parar a leitura. As cenas de violência física, aos poucos, ganham maior elaboração textual. Mama, a mãe, sofre vários abortos ao longo do livro, como punição física de seu marido.

O cotidiano desta família é regrado, como assim Papa quer. Kambili e Jaja têm horário para tudo e, basicamente, vão da escola para casa, da casa para a escola. Têm liberdade nula. Mama, podemos imaginar, vive somente para a família. No entanto, a rotina muda, finalmente, quando os adolescentes passam alguns dias no apartamento da tia Ifioma. Ela é uma professora universitária da classe média que tem três filhos e mal consegue colocar comida na mesa, pois a universidade federal está um caos - falta de recursos financeiros, falta de professores bons, falta de alunos com afinco. Apesar de ela e Papa terem recebido a mesna educação numa escola católica, o caminho deles foi completamente diferente. Ifioma é uma mulher combativa, em prol da liberdade e muito justa. Ela é a única que enfrenta Papa e que não tem medo de fazê-lo. Nesta casa, Kambili e Jaja se deparam com outra realidade, muito autônoma, participativa e saudável. É na presença de Ifioma, seus primos e um padre, que Kambili, aos poucos, se desfaz de suas amarras.
– Você acredita nesses meninos – eu disse num impulso.
– Acredito – disse ele, me observando – E preciso acreditar neles por mim mesmo, mais até do que eles precisam de mim para acreditar em si mesmos. 
– Por quê?
– Porque preciso acreditar em algo que eu jamais questiono. 
Ela é uma garota que não se expressa verbalmente e encontra dificuldade em se relacionar com o exterior. Quando voltam para casa, o leitor entende o quanto o choque de realidade proporcionou às personagens, uma vez que a dicotomia entre o amor e o medo (de Kambili por Papa) acontece. Existe uma adoração nem um pouco saudável que permeia a família e que cala as vozes de todos. Era a partir da adoração que Papa era visto como alguém que estava fazendo o certo, ainda que machucasse fisicamente a todos. O poder que ele exercia começa a ruir, ainda que o amor continua. 

Jaja é um garoto que, de início, sabemos que não é nada parecido com a irmã. Ainda que também seja alguém submisso, notamos a revolta a situação. Talvez por não querer se parecer com o pai, ele começa a se afastar de diversos rituais que os enlaçam. Ele é consciente de que, logo mais, será o homem da casa e que ainda não teve oportunidade de provar isso, uma vez que seu pai está sempre no controle. É também com tia Ifioma que ele entende que precisa, o mais rápido possível, começar a assumir a casa. 

A surpresa que tive ao ler Hibisco Roxo foi ótima. Sofri diversos 'choques' ao longo da narrativa. A narração é algo esplêndido, pois releva tudo muito aos poucos e de forma bastante diferente, bem mais de acordo com a maturidade da narradora (Kambili) do que com a necessidade das situações descritas. A apatia da narradora, seus questionamentos internos, seus conflitos e suas descobertas são encantadoras. A inocência e a imaturidade da personagem é coisa que ora irrita e ora nos faz entender o quanto a realidade dela é opressiva. Ela é alguém uniforme, mas que, aos poucos, se desprende e começa a lutar pelo que quer.

A história é singular de um modo sensacional. Conquista por diversos fatores: culturais, conflitivos e sentimentais. Qualquer resenha que eu tente escrever não chega nem perto de tudo o que passou na minha cabeça enquanto fazia a leitura. 

Para mim, apenas há um único ponto negativo, que foi o desenrolar do final. Achei pouco inteligente, na questão puramente literária, que a autora tenha se livrado do conflito central de uma forma tão óbvia. O final, para mim, perdeu muito da força que havia antes e terminou de uma forma minguada e praticamente sem emoção. Ainda assim, não compromete o desenvolvimento de todas as questões debatidas anteriormente. 

Um livro extremamente rico, convincente e arrebatador.

– Você pode fazer qualquer coisa, Kambili.

. . .

Ontem (28 de janeiro), aconteceu o encontro para debatermos a história, dentro do projeto #LeiaMulheres. Foi num local bem alternativo, com pessoas bem diferentes e com opiniões incríveis. Foi uma experiência muito gratificante e única <3

Sim, homens foram super bem-vindos! :)

Love, Nina :)

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19 comentários

  1. Olá, Nina
    Em primeiro lugar, queria te dizer que mal me lembrava de tão agradável que é a tua escrita e que, pelo visto, só melhorou.
    Tenho muita simpatia pela Chimamanda e gosto especialmente de Americanah, livro dela que li no ano passado. Acredito que você já conheça, mas a autora tem alguns vídeos no TED que também são muito interessantes.

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  2. Oi Nina, tudo bem?
    Não sabia que tu era de Porto Alegre hahaha! Não conhecia o projeto também, mas achei fantástico.
    Aliás, muito interessante esse livro que vocês escolheram. Não apenas pelo tema, como também pela ambientação - diferente de tudo que já li.
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  3. Um livro interessante, acho que ter esse choque cultural faz bem para gente. E perceber que existe culturas bem fechadas.
    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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  4. Oiii
    Super legal esse evento que você participou. infelizmente moro em um lugar onde essas coisas não acontecem =(.
    Sobre o livro, achei fantástico. Adoro conhecer mais sobre outras culturas e este livro parece ser um ótimo jeito de fazer isto. Também sou destas pessoas que não tem profundidade nenhuma em relação a Africa. Então o livro seria de um grande aprendizado.
    Infelizmente existem várias famílias em todos os lugares que vivem exatamente como a da protagonista, Esta relação de amor e ódio, privação de liberdade entre outras coisas.


    Vícios e Literatura

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  5. Olá, tudo bem? Adorei a resenha, o livro parece ser muito bom mesmo... Muito bacana o evento, deve ser ótimo compartilhar suas emoções com pessoas que leram a mesma obra que você...

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  6. Oi Nina, acho este projeto incrível! Já li um livro da Chimamanda, e conheço este, apesar de não ter lido. Pelo visto a autora envolveu o leitor em um enredo que passa muito bem as coisas relacionadas à Africa, como costumes, comidas e mesmo seus conflitos. Um livro muito bom para se ter na estante.
    Bjs

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  7. Eu ainda não conhecia esse livro mas também tenho muita vontade de ler algo dela, gostei bastante da sua resenha e achei uma ótima dica. A obra parece mesmo ser rica e espero que eu possa realizar a leitura em breve.

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  8. Muito bacana esse encontro e o projeto!
    Quanto ao livro, estou conhecendo-o agora através da sua resenha. Não li nada da autora até agora e gostei da sua sinceridade sobre o final da história. Apesar da narrativa ser esplêndida, as questões debatidas não despertaram a minha curiosidade.
    Bjs!

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  9. oi! adorei seu projeto Leia Mulheres! eu tenho um parecido, mas pequeno ainda.. desejo que dê muito certo! Não conhecia o livro nem a autora, e preciso dizer que este não é um gênero literário que me atrai. POrém achei a história bem cativante e boa de se ler. talvez eu me arrisque. preciso pensar melhor e ter certeza para não comprar e não ler kkkkk
    beijos, isa

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  10. Oiii Nina
    Você sempre trazendo esses encontros incríveis de poa para nós, fiquei bastante interessada e se não fosse tão ruim me deslocar até aí, adoraria participar, tenho certa vontade e curiosidade de conhecer esse livro e ler.
    Beijinhos da Morgs!

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  11. Oie
    Muito bacana esse projeto Leia Mulheres. Aqui em Brasília tem um parecido.
    Adorei suas impressões do livro mas confesso que o que comentou sobre o final me deixou um pouco desanimada, já que acredito que o desenrolar do final é quase o ápice da leitura, então, tem que conquistar.
    Bjo

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  12. OI!!

    Nem sei o que falar. Sou uma admiradora da Chimamanda desde época da faculdade onde assiste sua palestra e li seus textos maravilhosos sobre a única cultura. Desde então tenho namorado vários livros dela e esse é um deles. A temática parece ser maravilhosa e estou esperando o preço baixar para adquirir. Beijos e obrigada pela deslumbrante dica. Amei!

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  13. Olha você também é gaúcha! Eu sou de São Leopoldo! :D
    Ta vamos ao livro que pelo visto é uma leitura maravilhosa e única. Nunca li nada do autor e nem mesmo havia lido uma resenha sobre essa história e após ler a sua sinto que é uma leitura que eu quero fazer, mesmo com um final que posso me decepcionar, sinto que esse livro tem muitas questões culturais sobre a Nigéria e seus moradores que com certeza irá vale a pena.

    Beijos e até logo! :*

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  14. Olá! Tão bom quando a leitura do livro nos surpreende e nos prende até o final. Ainda não conhecia, mas pareceu interessante. Vou anotar a indicação, bjoo

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  15. Amei a indicação! Muito obrigadoo, eu já participei de varios eventos assim e não tem coisa melhor haha eu sou o que sempre fica discutindo pq eu sempre acho que irria acontecer algo no final, mas na verdade é outra coisa kkkkk
    beijos

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  16. eu tô numa vibe de ler mais africanos esse ano... curti bastante a premissa de Hibisco...cara, eu já tô com ojeriza do Papa... espero que o final não seja decepcionante pra mim, a ponto de me frustrar demais...
    mas acredito que a boa trama vai balancear isso...
    bjs...

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  17. Olá Nina!
    Não conhecia esse livro, mas já ouvi elogios incríveis sobre a autora e acabei comprando na Amazon o Americanah (estou louca pra ler). Esse projeto leia mulheres parece ser incrível, adoraria ter a oportunidade de participar.
    Parabéns pela tua resenha, apesar de Hibisco Roxo parecer ser uma leitura complexa, com temas bem impactantes, você conseguiu expressar muito bem a tua visão sobre ele e me deixou bastante curiosa em realizar a leitura.
    Beijo

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  18. Achei um livro de conteúdo riquíssimo e interessante. Gostei da sinopse e pretendo lê-lo algum dia, mas por agora estou na fase dos romances bobos. hahaha
    E olha, parabéns pela resenha.

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  19. Olá, não conhecia a obra...a leitura parece ser ótima, vou anotar a dica.
    Adorei saber sobre o projeto...parabéns!

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