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Luz de inverno: a magia desapareceu

by - fevereiro 25, 2017

Recebi Luz de Inverno, da Keila Gon, a partir de mais um book tour promovido pela autora. Este é o último volume da trilogia, e os outros já foram resenhados AQUI (Cores de Outono #1) e AQUI (Sombras da Primavera #2).


Título: Luz de Inverno - Linhagem mágica
Autora: Keila Gon
Editora: Mundo Uno
Páginas: 477
Ano: 2016
★★★

Se vocês forem conferir a resenha do segundo livro, verão que ela foi publicada em novembro de 2015. Começo a resenha pontuando isso, pois esse gap entre a leitura do segundo e do terceiro livros influenciou bastante a minha opinião de Luz de Inverno. Tive que reler a resenha anterior para entender o que tinha me chamado atenção antes e o que, agora, eu não conseguia encontrar neste último volume. 

Em Luz de Inverno, a protagonista Melissa regressou à primeira etapa. Sua liberdade, força e independência conquistadas basicamente sumiram. Como é Melissa, em primeira pessoa, que narra majoritariamente a história, isso me desanimou e irritou. A dependência emocional em relação ao seu par, Vincent, refloresceu, também. Há uma atmosfera quase que opressora de Vincent para com Melissa: ele não confia nos poderes recém-adquiridos de sua noiva e a subestima incontáveis vezes, com a desculpa de que é preocupado com sua segurança. O discurso "protetor", que esconde toneladas de machismo, é gradativamente irritante e revoltante. Esse aspecto disseminado nas entrelinhas em vários momentos me distraiu e me desmotivou. Fiquei imensamente triste por não encontrar mais a personagem forte que tinha aprendido a admirar no segundo livro. Ver seu regresso, além de me irritar, me preocupou.

"– Você fala em controle, mas não entendeu que não estamos controlando nada... há muito tempo", p. 302 

É comum, na literatura atual, ainda encontrar premissas de protagonistas femininas falsamente independentes - e Melissa, infelizmente, tem essa premissa. Ainda que seu desenvolvimento tenha culminado incríveis transformações, acredito que elas se perderam ou foram deixadas de lado em prol de uma storyline enjoativamente romântica e opressora. Não foi raro encontrar passagens literalmente machistas e com um toque de abuso emocional (e, às vezes, físico - como nos casos em que Vincent a segurava quando ela claramente estava dizendo não de forma não-verbal). 

Nessa última parte da trilogia, Melissa está com o casamento marcado com Vincent (no mundo mágico também chamado de Pacto de Futuro). A princípio, é difícil convencer seu avô sobre o assunto, pois ele ainda não quer aceitar a magia familiar. É claro que há segredos a serem ditos, aceitos e desenvolvidos. Melissa, agora, tem consciência de sua linhagem mágica e isso lhe trará problemas, tanto em sua relação com Vincent quanto no mundo mágico. 

A narrativa quase que inteira é morna e arrastada, o que me desanimou conforme a leitura avançava. Sabe um livro que você torce para acabar logo, porque está entediada? Infelizmente, aconteceu com Luz de Inverno. Não que não haja alguns (raros) momentos de conflito bombástico, mas a maioria deles é muito relacional, que não vem de fora, dos perigos do mundo mágico. Aliás, há grande agonia em esperar os conflitos grandes apareçam - me senti no meio de uma Guerra Fria, à espera de algo que não acontecia nunca. O que poderia ter sido uma ótima tensão, me fez sentir apenas irritação e tédio. Mesmo os segredos e as traições são reveladas se forma minguada e com pouca emoção.

Os pontos positivos estão na forma como a autora conduziu de forma lenta (mas muito humana e certeira) a transformação da família de Melissa. É bem aos poucos que vô George aceita as mudanças, mas que produzem efeitos incríveis. É muito sutil e lindo perceber a união das famílias Wels e Von Berg. Da mesma forma, eu adorei o caminho que a autora ofereceu para Alice, irmã de Melissa. Achei adorável que tenha havido o distanciamento entre ela e Heros (Armand, que estava amaldiçoado em forma de cachorro) e, depois, as redescobertas da amizade de ambos. 

O livro traz o fechamento de uma história que tinha muita força, mas que, agora, está focada em aspectos muito mais afetivos do que mágicos. Como último livro de uma trilogia de fantasia me decepcionou bastante, pois não tem o mesmo fôlego dos volumes precedentes. Em compensação, há muita humanidade nas interações das personagens - o que as leva construir ótimos plots, assim como péssimas consequências e percepções.
"– Algumas coisas precisam acontecer na hora em que têm que acontecer. É como o amor... que pode ser uma prisão, mas também tem o poder para libertar", p. 472 
Em relação à escrita, a Keila ainda consegue ser sensacional. Seu português impecável e sua linguagem madura continuam encantadoras. Com tantos novos autores que não prezam pela revisão, a autora consegue se destacar primorosamente nisso - o que faz de sua literatura ser muito profissional.

. . .

Juntamente com o volume #3, veio o breve conto spin-off Noite de Verão. Nele, a história é narrada por Alice, que não é mais criança. Agora, ela já está no final da adolescência e, a partir de sua visão, a retomada de sua relação com Heros/Armnand é desenvolvida. Eu fiquei bastante feliz por esse plot à parte, porque conferiu outro dinamismo à trama. Confesso que, em certo ponto, eu já estava saturada de Melissa e, diversas vezes, cheguei a pensar que, se Alice fosse a protagonista, a trilogia teria outro fôlego, muito mais próximo da magia, da coragem e da independência.



. . . 

*Bônus: entrevista com a autora

1) Você teve alguma dificuldade ao criar o mundo fantástico da trilogia, ou acha que a criação aconteceu de forma muito mais livre? conte-nos como foi esse processo de criação das personagens, lugares e poderes mágicos!                                            
Dificuldades, não... de certa forma, foi natural unir pesquisa e experiências, lembranças de lugares, viagens e pessoas, reais e fictícias, adicionando a tudo muita imaginação. Parece que esse “outro Mundo” sempre existiu, por assim dizer. Usei muitos lugares reais, como nas passagens fora do Brasil (e procurei ser a mais real possível, cada caminho e cada lugar, realmente existe!), mas acrescentei uma pitada inventiva, como a cidade onde se passa a história, “Campo Alto”. Ela é fictícia, mas foi inspirada totalmente nas cidades da Mantiqueira (a principal, Campos de Jordão, que eu amo de paixão... lugar realmente mágico!!). Talvez por isso, e pela pesquisa, mítica e mágica, o assunto se tornou mais que comum para mim. E olha que gosto de ler sobre o magia desde criança... e não estou falando apenas de causos do meu avô, contos de fadas e jornadas pelo mundo mítico, mas também, da história mágica que encontramos na literatura convencional. Os magos de verdade. Bom, de toda forma, foi muita pesquisa... muita mesmo. Meses, para ser sincera. Até formar um esboço do que eu queria nessa história, onde seria o limite de realidade e fantasia, e quanto das duas partes o leitor poderia aceitar. Minha ideia foi criar um lugar fantástico, mas crível... sei, louco isso. Mas fazer o leitor acreditar que é possível é muito importante. Tanto os poderes mágicos, daqueles que desejamos ter (e que a pesquisa ajudou a explicar), como os seres mágicos, que tem várias denominações pelo mundo e estão presentes em todas as culturas. Minha missão era fazer o leitor duvidar que o que vemos é o fim, imaginar essa Dimensão Mágica logo ali, ao seu lado, em qualquer lugar. Porque ela está, a um passo... na sua imaginação :)

2) Você tem algum momento ou cena que ainda te emociona? aliás, você se emocionou algumas vezes durante a escrita ou quando colocou o último ponto final definitivo?
Acho que dois pontos da Trilogia me marcaram muito... [SPOILERS!] Um deles foi em Sombras da Primavera, quando Vincent é terrivelmente ferido... Descrever a dor deles foi exaustivo emocionalmente e me fez mal fisicamente. O segundo ponto que me emocionou foi a perda de George. Mexeu com as referências emocionais que levei do meu pai para o personagem. Eu sabia que aquilo tinha que acontecer na história, mas adiei o máximo possível. Quando aconteceu, precisei de um tempinho pra me recuperar... tanto que a editora queria me matar, porque eu alterava o texto final o tempo todo. Agora, falando em ponto final.... bem, o livro mais comemorado foi Cores de Outono. Talvez por não ter prazos. Quando acabei a última cena, fechando a história, saí dançando pela casa, literalmente!

3) Ao escrever a trilogia, você aprendeu o que com seus personagens? O que vai levar para sempre em sua vida a partir da criação deles?
Esperança, perseverança, coragem... Com certeza, sou muito diferente depois de ter vivido por quatro anos com eles. Aprendi muitas coisas, MESMO, mas a principal é a compreensão. Nada, nem ninguém, é perfeito. Não como queremos que seja. Acredito que a imperfeição é divina e, quando compreendida, se torna a mais maravilhosa das descobertas humanas.

*Lembrando que o bônus acontece em resenhas de autores parceiros

///

Tenho muito o que agradecer à autora e à sua administradora Ana Paula por me proporcionarem a leitura dessa trilogia a partir do book tour durante esses anos. Que haja muitos outros livros pela frente, Keila! É muito bom ver autoras nacionais na fantasia e sendo recebidas pelo público com amor e respeito ❤

Love, Nina :)

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17 comentários

  1. Oi, Nina!
    Eu li apenas o primeiro livro da trilogia e já faz tempo. Mas lembro de ter gostado e de ter ficado bem presa à história. A escrita da Keila realmente merece elogios. Mas que pena que o último livro deixou a desejar logo em aspectos tão importantes... E acho meio preocupante que tantos livros, nacionais e estrangeiros, estejam carregados desse machismo e de relacionamentos abusivos apresentados ao leitor como se fossem amor.

    Beijos, Entre Aspas

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  2. OOi, Nina!
    tenho muita vontade de ler essa trilgia. Amo o gênero a acho a premissa dela super bacana. Só esse machismo, que sisma em estar presente em tudooo, me estressa. Nossa! Essa super proteção, essa vontade louca de manter a mulher em segurança enrolado em plástico bolha... Ás vezes amoooo o livro, mas tem que ter isso para estragar e diminuir minha avaliação.
    Ainda espero ter a oportunidade de lê-lo, mas, realmente, essa super proteção é bem chataaa.
    UFA!
    Beijoos! haha

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  3. Oi Nina! Tudo bem?
    Literatura fantástica não é o meu forte, mas gostei da ideia do Book Tour, participei de um e achei super bacana! A capa do livro é linda e sua resenha ficou ótima, mas não despertou minha curiosidade para ler! Fica para a próxima!

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  4. Oi Nina!
    Não conhecia esse livro e gostei bastante da premissa. Porém quando os temas se arrastam muito tenho receio em ler porque a leitura fica cansativa demais. Achei bacana as aventuras seguidas pelos personagens, espero um dia pegar pra ler, mas por enquanto não seria um livro que pegaria pra leitura.
    Parabéns pela resenha!

    Beijos!

    Camila de Moraes.

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  5. Eu acho que ainda não conhecia a trilogia mas a premissa não me deixou interessada em realizar a leitura. Eu gostei da sua resenha sincera e saber que o livro é tão arrastado que você chegou ao ponto de torcer para acabar logo, por estar entediada, me desanima bastante, tive umas leituras assim recentemente e não quero ler outro assim.

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  6. Oiii NIna, tudo bem?
    Infelizmente dessa vez a obra não despertou meu interesse, por isso irei pular a dica, mas gostei tanto da sua resenha, a forma que fizeste e colocação, gosto da maneira que tu escreve meu bem!
    Beijinhos da Morgs!

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  7. Oi
    Eu não curto livros com continuação, não mais. No geral, o enredo não foi chamando minha atenção. Sobre o 'autor profissional', fiquei em dúvida, é pra desconsiderar Patativa do Assaré e tantos outros? Mas deixa quieto, sou muito leiga, enfim... sobre a entrevista, eu curti as resposta da autora, me parece bastante simpática, apesar de no geral não curti muito o enredo e livros com continuação, leria o livro para saber mais sobre a escrita da autora.

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  8. Puxa Nina, gostei muito da forma como você pontuou suas impressões sobre o livro! É muito bom perceber que sua leitura foi crítica apesar de você ter gostado e ter tido esse contato com a autora. Suas perguntas também forma bem pertinentes e criativas.
    Eliziane Dias

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  9. Olá!
    Não conhecia a autora nem a trilogia. Nesse momento não seria uma leitura que eu escolheria, mas posso deixar anotada para um futuro próximo.
    Gostei da entrevista, a Keila parece ser simpática e criativa e confesso que o spoiler me deixou mais curiosa sobre os personagens, que parecem ser bem constrídos.

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  10. Oi Nina, eu tenho o primeiro volume, mas não li ainda. Uma pena que o último livro tenha sido uma leitura arrastada, é difícil acabar gostando do enredo assim. Pelo menos para mim.
    Bjs, Rose

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  11. Oi.

    Confesso que li a resenha meio que por cima, com medo de ler algo que não devia. Como não conhecia e não li os outros dois livros, pulei algumas partes da resenha. Como disse, ainda não conhecia a trilogia, mas ela parece ser bem interessante. Fiquei com um certo interesse nela e vou procurar depois os livros.

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  12. Que bom poder ler essa resenha do último livro. Lembro que elogiei a capa do primeiro livro e o fato de ter uma personagem feminina forte. Agora fiquei triste de ler que a personagem regrede em nome de uma relação nada saudável.
    Espero poder ler mais livros com personagens realmente empoderadas.

    Beijos!

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  13. Olá, tudo bem? Olha confesso que apesar do falso fato da personagem mulher se forte que aqui se torna evidente, confesso que leria sim o livro. Gosto bastante de fantasias que se mistura a romances, além disso achei bem bonita a capa. Hoje em dia é difícil achar livros com mulheres empoderadas, ao meu ver. Sempre haverá uma quebra, um momento de fraqueza, de erros nesses personagens. É bem confuso essa questão.Gostei de você ter levantado tantos pontos negativos quantos pontos positivos. Ótima resenha!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

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  14. Oi, Nina ^^
    Bom, desconhecia essa trilogia então pra mim foi bem tenso ler a sua resenha por ter medo de receber spoilers e tenho certeza que recebi alguns no decorrer da leitura! kkk
    Mas o que posso dizer é que fico decepcionado em ver essa imagem falsa de girl power que muitas protagonistas de livros e filmes tem, é um retrocesso para o empoderamento feminino. Espero que a história da Melissa sirva de exemplo de que as mulheres sempre devam persistir para sair dos relacionamentos abusivos e que nunca deixe a rotina chegar e nem se esconda sobre a ameaça do companheiro. Nunca!
    Muito obrigado por sua resenha esclarecida e sincera, Nina. Fico feliz por você não ter escondido nada do que aconteceu nessa conclusão da trilogia, que pena que a autora regrediu na personagem. Espero que os próximos livros da autora tenha esse cuidado reforçado para nunca regredir, mas avançar.
    Bjs

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  15. Oii
    É triste vc acompanhar com tanto amor algumas trilogias/séries para no final elas serem extremamente decepcionantes. Não lembro de alguma que tenha me feito ficar tão decepcionada, mas quando se trata de machismo na literatura infelizmente é muito comum. Isso é triste e revoltante ao mesmo tempo. Talvez tivesse sido melhor parar no segundo livro, não seria uma má ideia certo?

    Beijos

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  16. Olá! Que bom que o livro fecha a história com muita força. É ruim quando apenas um livro de uma série é bom ou quando tudo é bom mais o final é fraco. Adoro quando além da resenha do livro tem entrevista assim podemos saber mais sobre a história. Que bom que o mundo criando pela autora para ela foi uma escrita de forma natural. Beijos'

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  17. Olá!
    Eu ainda não conhecia essa série, mas confesso que alguns comentários que você fez, como a falsa independência e o machismo enrustido nas ações, me desanimou totalmente a ler esse livro. Talvez leria quando mais nova, no momento essas coisas em incomodariam muito.
    Beijos.

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