25 de março de 2017

Look: bright & lovely

Ano passado foi essencial para que eu falasse sobre a minha vida pessoal aqui no blog. Foi a partir do Twelve Letters Project e do Essential Book que percebi que eu sou bem mais do que os livros que leio - eu sou alguém além de tudo e todos que amo. Sou alguém além dos meus transtornos. Sou alguém que, apesar de parecer muito quieta, abriga um oceano sem fim. E lidar com ele é sempre uma batalha diária. Às vezes é nadar e se afogar no meio do caminho. Às vezes é avistar uma ilha e se sentir agradecida por algo familiar. 

Lidar com o meu mar é cansativo e eu não sou uma pessoa que ama tirar fotografias, mas tentei mostrar nesse ensaio que, às vezes, a gente consegue encontrar paz e vontade de viver. Esse começo de ano, especialmente com o novo semestre letivo, não está cem por cento. Meus dias estão oscilando bastante - às vezes, fica difícil sair da cama ou entrar em alguma aula. Mas fico agradecida pelos ataques de pânico não terem voltado, apesar de a ansiedade ainda me limitar. 

Acredito que as mudanças acontecem para nós bem aos pedaços e depende muito da nossa aceitação. 2016 foi o ano da minha aceitação, mas não de uma forma negativa, daquela que nos faz acomodar. Porque a gente sabe que haverá situações que não, independentemente do nosso esforço, não mudarão. E, então, por que não aceitá-las e seguir daqui pra frente? Faz oito meses que estou nessa caminhada. A meditação tem me ajudado a ignorar partes imutáveis da minha vida e fazer algo a partir daqui. Eu sei que esse "fazer algo a partir daqui" assusta, porque às vezes não sabemos para onde ir. Mas, mesmo assim, eu fui - e continuo indo. Não sei onde vou chegar e, na verdade, não acho que isso seja o mais importante. O importante mesmo é o que eu estou fazendo enquanto continuo. 

Com essas fotos, eu estou continuando. Eu continuo tentando. 




Já fazia muito tempo que eu queria fazer mechas azuis no meu cabelo, então, ano passado realizei esse sonho. Como cores fantasia saem muito rápidas, ficaram as mechas descoloridas e aproveitei para re-pintar, agora mesclando com o rosa. Ficou discreto, e eu gostei bastante. 

Até ano passado, eu não tinha percebido o quanto a gente se renuncia por causa do mundo. E as novas experiências, totalmente alheias às opiniões dos outros, me têm feito muito feliz e mais verdadeira. Sinto que, mesmo aos pedaços, eu construo a minha identidade para que ela, enfim, seja quem eu quero que os outros vejam. 

Não é fácil ou "bonitinho" ser quieta quando se tem um mar revolto por dentro que quer combater tudo o que me dizem e as formas como me tratam. O meu silêncio, na verdade, é muito mais parte do que me fizeram do que algo intrínseco meu. 



Aqui a câmera da minha amiga trollou a gente, então algumas fotografias saíram desfocadas, mas escolhi esta, porque foi a minha preferida. 

Eu tive certa dificuldade em "agir normalmente" nesse ensaio, porque fotografamos no campus da minha faculdade, num horário em que já tinha bastante gente. Mas acho que mesmo assim muitas saíram naturais, porque eu não queria algo tão posado também. Basicamente, disse pra minha amiga ir fotografando sem pensar se eu estava "bonita".

Aliás, dificilmente eu me acho "bonita" por mais de cinco minutos. Tem que ser algo muito especial pra eu aceitar, aliás, ser fotografada. Mas, a partir do ano passado, eu tenho aprendido a lidar melhor com isso. Eu sei que aceitar quem a gente é por fora é difícil pra todo mundo. Vai ter sempre algo que desgostamos. 

O amor-próprio é, também, aceitar a nossa imagem - mas, acima de tudo, aprender que pensar no nosso bem-estar não é egoísmo ou desamor aos outros. Amar a nós mesmos mais que aos outros é aprender sobre cultivar paciência e sobre lembrar que nosso tempo de cura - e de aceitação - é apenas nosso. 

Cada vez que chego mais perto de quem sou por dentro a partir de quem sou por fora sei que estou oferecendo amor-próprio a mim. E, assim, ofereço também aos outros - porque o amor é sempre algo transformador para melhor. 

O amor segue em frente a partir daqui. O amor continua sendo amor mesmo depois de muito tempo. A gente só tem que lembrar que ele está em todos os lugares. Especialmente dentro de nós.



Eu sei que, até hoje, nunca fiz uma resenha de All the bright places (Por lugares incríveis), da Jennifer Niven. E, provavelmente, nunca farei. Porque ele tem muito a ver com o amor. É uma daquelas situações em que dizem que a gente sente tanto amor que mal sabe colocar em palavras. E, na verdade, as palavras são insignificantes perto do quanto esse livro foi o responsável pela minha mudança de vida. 

Foi por causa dele que busquei ajuda no meio de uma depressão. Foi ele que me ofereceu esperança e me fez sentir acolhida quando não via propósito em ser amada. 

Hoje, eu me sinto cada vez mais incrível e amada. Posso não estar perto de estar chegando a algum lugar, mas o importante é que eu me mantenho tentando e continuando, com uma enorme paz e gratidão no coração. 

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Fotografia: Aline Possaura

Você pode saber mais sobre 
All the bright places (Por lugares incríveis, Jennifer Niven) AQUI e AQUI 


Love, Nina :)

20 de março de 2017

Desconstruindo Una: silêncios femininos marcados pela violência

Mais um título que está na minha meta para o Leia Mulheres 2017. Já fazia algum tempo que queria ter tido a oportunidade de lê-lo e, leitura agora feita, só posso dizer o que está escrito na quarta-capa: esta é uma das graphic novels mais importantes do (seu) ano.


Título original: Becoming unbecoming
Autora: Una
Editora: Nemo
Páginas: 207
Ano: 2015
★★★★★

Estou cada vez mais feliz por estar encontrando ótimos materiais em HQ's e grapfic novels. O tema de Desconstruindo Una não tange apenas uma parcela da população. A violência contra mulheres, hoje se sabe, não é apenas a física. Aliás, as violências não são testemunhadas dessa forma simplesmente porque deixam marcas visíveis. Muitas vezes, as marcas invisíveis são as que mais doem e que mais traumatizam os violentados. 

Nesta graphic novel há duas narrativas entrelaçadas: a) a da comunidade e b) a da protagonista Una. As ilustrações mostram não somente o objetivo da história, mas oferecem subsídios que nos permitem "construir" Una. Então, há memórias de infância: o casamento de seus pais, seus gostos musicais, suas preferências artísticas. Enquanto a personagem está crescendo tem de lidar com notícias e noticiários da comunidade: relatam assassinatos a diferentes mulheres. Aos poucos, isso muda a rotina do local e o medo é a atmosfera constante. 

É na puberdade que a realidade de Una muda completamente. Ela não tem o total entendimento do que lhe fizeram, mas suas habilidades sociais decaem, ataques de pânico começam a surgir e ela é levada à terapia. A baixa comunicação com todos à sua volta é algo que sua família não entende, e Una prefere que isso se mantenha assim. 

A narrativa cresce e se desenvolve de muitas formas, abordando os diversos vieses da violência contra a mulher e, também, do machismo. Há partes inteiras que relatam construções sociais (à exemplo de como garotas/mulheres deveriam se comportar) e que se utilizam de elementos presentes para falar sobre saúde mental, pós-traumas, silenciamento de vítimas e feminismo. A personagem é imensamente mais profunda do que, simplesmente, a garota que foi estuprada e não consegue dizer a ninguém. A todo momento, o leitor se depara com as várias essências dela, com as várias consequências sobre seu futuro e com as suas várias técnicas para sobreviver com um segredo tão cruel e pesado. 


Desconstruindo Una é um relato tanto adorável quanto angustiante. É adorável conhecer a personagem, mas sua essência violentada causa muita angústia. Achei, entretanto, que o ponto do silêncio é muito realista e condizente, uma vez que a maioria das vítimas prefere (ou não pode) denunciar seus agressores. Ao utilizar o fechamento de mundo e a fobia para com os outros, a autora conseguiu trabalhar, também, a comunidade. Apavorada com a série de mortes, o local também vai cada vez mais se silenciando e demonstrando a ansiedade de alguém que lida com traumas invisíveis.

A leitura da grapfic novel se faz importante não somente por abordar um assunto tão em pauta hoje em dia, mas também por oferecer informações e dados sobre este assunto. Não se limita a contar uma história "fechada", pelo contrário: tenta, em muitas vertentes, trazer aspectos além da visibilidade da violência contra as mulheres. E, para isso, fomenta debates, questionamentos e reflexões sobre uma sociedade que faz o movimento oposto ao de educar e punir os agressores (ou seja, culpa e, ao mesmo tempo, silencia as vítimas). 

A história dos assassinatos não é ficção, aliás. A autora faz referências a livros, jornais, artigos e estatísticas. No final do livro, é possível consultar a todas essas referências e links dos mais variados para e de mulheres em situações de violência.


Apesar de há pouco iniciada nesse gênero narrativo e de já ter lido ótimas HQ's e grafic novels, com certeza Desconstruindo Una é a minha preferida por ser atual, oferecer uma temática tão delicada e ser potente. 

Eu sempre acreditei que a arte e a cultura - sejam elas das naturezas que forem - têm a capacidade de nos dizer as verdades mais cruéis, românticas ou esperançosas com o intuito de tentar mudar nossas realidades. E Desconstruindo Una consegue nos emocionar com a frieza dos acontecimentos ali ilustrados e, também, de nos engajar a assuntos que precisam ser vistos, ouvidos e debatidos. 

A questão da história não é se você é feminista ou feminista o suficiente para concordar que violências de gênero devem acabar - é a de dizer que a situação existem independentemente de você ser contra ou a favor do feminismo. A narrativa não é, de forma alguma, voltada apenas para feministas. O objetivo dela é alcançar a todos, é ir para além da comunidade local e de realidades individuais.

Você nunca foi estuprada. Você nunca foi assediada. Você nunca foi ameaçada. Você nunca foi rebaixada. Você nunca. E nunca será. Mas, ainda assim, essa história é para você. É para todas as mulheres que precisam lembrar que poderiam ser estupradas, assediadas, ameaçadas, rebaixadas (etc) por terem nascido mulheres. 

. . .

No Brasil (informações também encontradas ao final do livro):

1. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres: Central de atendimento à mulher
2. Secretaria de Direitos Humanos: Disque 100
3. Childhood (sobre violência sexual contra crianças e adolescentes)









Una é artista, acadêmica e quadrinista. Suas narrativas gráficas, feitas de forma independente, já exploraram a deficiência, a psicose, o ativismo político e a violência contra mulheres e meninas.




Love, Nina :)

13 de março de 2017

Quando te conheci: não é permitido sentir

Li poucas resenhas desse filme antes de ele estar disponível na Netflix. Todas muito positivas. Foi muito por acaso que descobri que já está no catálogo da plataforma e fiquei bastante feliz. A história é essencial por muitos motivos e seu enfoque se assemelha ao filme O doador de memórias - que é tocante e lindíssimo, então, também o recomendo.


Título original: Equals
Diretor: Drake Doremus
Duração: 1h e 41 minutos
Ano: 2016
Gênero: sci-fi / drama
★★★★ 

Apesar de o título em português ser bastante poético (e triste, apesar de assertivo), prefiro o original, que é Equals. É mais objetivo e cru. Tanto é que mal reparei que era o mesmo filme no catálogo por causa disso - só tive a confirmação porque sabia que os protagonistas eram a Kristen Stuart e o Nicholas Holt. Além disso, a palavra resume a atmosfera do filme. 

Quando te conheci não fala apenas de amor romântico, mas de todo e qualquer sentimento. A essência do filme é justamente a do não-sentir. As pessoas dessa sociedade em questão não transparecem sentir emoções - dor, compaixão, medo. Elas nem mesmo reconhecem os sentidos humanos, como a sensação da água do chuveiro na pele. É chocante, inclusive, lembrar que, se nenhuma emoção pode ser sentida, então, a maternidade é algo solitário - não existe sexo entre duas pessoas e qualquer atividade sexual é, também, combatida. Algo notável é que homens e mulheres têm cabelos curtos, talvez justamente para inibir o desejo sexual (?). Tudo é automático - as relações, em especial, pois a sociedade preza o profissionalismo. E é muito fácil entender isso ao analisar as inúmeras cenas em que os protagonistas exibem suas habilidades na empresa em que trabalham. 

Se o "natural" é o não-sentir, quem é classificado o oposto precisa passar por uma consulta e, dependendo do nível de SOS (switched-on-syndrome), o tratamento é diferenciado. O mais impressionante da narrativa é o quanto ela se aproxima de temáticas que debatem a saúde mental, já que o sentir em excesso ou atipicamente - como ansiedade, depressão, bipolaridade e outros transtornos - seguem o mesmo caminho oferecido (e não oferecido) do filme. 

Silas é ilustrador e está encaixado naquele local, a princípio. Nia é roteirista e imita seus colegas. A storyline, aqui, não é muito surpreendente - as consequências, o conflito central e o entrelace das vidas de Silas e Nia podem ser inferidos a certa altura do filme. No entanto, foi impossível não me tensionar e me apegar. Ainda que exista muita inexpressividade e frieza, a narrativa oferece o oposto disso tudo na medida certa. O romance é gradual e muito condizente com a sociedade - existe medo e recusa, mas também existe sutileza e encanto. 

– Mas há valor em viver. Ser um “esconderijo” te lembra disso (...) É difícil ver coisas e não se comover. Então você faz pequenas coisas para ajudar. Apenas olhar alguém nos olhos pode fazê-los sentir que não estão sozinhos. Dá esperança a eles. (...) Prefiro ficar com pessoas que sentem. Que sentem intensamente. Me lembra quem eu sou e por que escolhi continuar a viver. Todos dizem que não é contagioso. Todos os anos, por pior que seja, todo dia sinto uma forte afinidade com outras pessoas. 

Silas e Nia precisam não somente se unir, mas se proteger mutuamente para que o Coletivo não os descubra e as consequências sejam desastrosas. No casal, vemos mais uma vez a narrativa se aproximar da questão da saúde mental. Por causa do desvio emocional de ambos, não existe apenas amor, mas dificuldades e barreiras. A associação à transtornos mentais é incrivelmente fácil. Ali, as pessoas fora do padrão são estigmatizadas, excluídas e forçadas a se readequarem. Alguns, como Silas, podem apenas tomar pílulas que vão equilibrar seu emocional - mas outros podem sofrer tratamentos desumanos, como eletrochoques (Esther e sua depressão em A redoma de vidro). É dito, aliás, que muitos acabam se suicidando e que o suicídio é algo incentivado dentro das equipes de saúde. 

A beleza de Quanto te conheci é amena, subjetiva e contida - mas que, no momento certo, se alastra e se torna tudo aquilo que a sociedade fictícia combate. A fotografia é quase monocromática, apagada e triste. São raras as cenas em que a cor explode na tela. É interessante perceber como isso muda de acordo com os sentimentos das personagens, inclusive. E há muitos closes, que podem incomodar alguns - eu, particularmente, gostei muito, pois oferece o caráter intimista. Ah, muito se fala que a Kristen é apática como atriz e, sim, você verá exatamente isso - e, honestamente, ela é incrível nisso. Tanto ela como o Nicholas exercem os papéis de seus personagens de forma adorável e convincente - interpretando cenas solos ou em conjunto, ambos estão perfeitos. Não poderia amar menos a história e seus desdobramentos - alguns, inclusive, me deixaram muito angustiada. O desfecho, quando acontece, pode te deixar frustrada e inconformada. Assim que a narrativa terminou, tive vontade de rever tudo, porque a atmosfera e a mensagem do filme casaram bastante com a minha essência subjetiva e neuro-atípica. Impossível recomendar menos

– Sentimentos produzem sentimentos. SOS nem é uma doença. É o que eles dizem, mas eles nos adormecem entre a concepção e o nascimento. SOS é quem realmente somos e os inibidores são mais uma tentativa de esmagar isso.
– Eu não sei. Pelo menos com os inibidores eu consigo relevar. Mas agora, eu preferiria não sentir nada. (Sentir) nada é melhor do que isso. 






Love, Nina :)

3 de março de 2017

Milk and Honey: as quatro etapas para o amor-próprio

Escolhi este livro propositalmente para o Leia Mulheres (2017), porque já o queria na minha estante há meses.


Título: Milk and honey
Autora: Rupi Kaur
Editora: Andrews McMeel Publishing
Páginas: 204
Ano: 2015
★★★★★

Os poemas da Rupi Kaur são viscerais. Embora a massiva maioria deles seja curtíssima, a intensidade é sublime - quase como uma desconstrução da alma: de dentro para fora. É impossível acabar de ler alguns versos e não parar por um instante um instante e perceber que está acontecendo uma implosão na gente. 

A leitura é facílima, em um pouco mais de uma hora eu concluí a minha. Apesar de eu ter escolhido comprar a versão original (em inglês) (e, apesar de eu não ser fluente no idioma), o entendimento dos versos é muito natural e direto. Raramente encontrei palavras cujos significados não sabia e, mesmo assim, o entendimento aconteceu. Isso porque todos os poemas de Milk and Honey têm sentidos muito óbvios e são muito simplistas - mas sem deixar de causa no leitor uma catástrofe sentimental, ora de angústia, ora de orgulho, ora de devastação, ora de fascínio.

O livro é dividido em quatro partes: (1) a dor, (2) o amor, (3) a quebra e (4) a cura. Em cada um dos capítulos, a autora nos apresenta momentos que se interliguem com o tema. Em (1) a dor, existe muitas memórias de infância, abuso (relacionados ao estupro) e relações tóxicas. É muito bonita a forma como os poemas, nesta primeira parte, trazem a maternidade; Rupi traz, em todas essas vezes, sua mãe como a figura materna - a partir dela, continua falando de abuso (atrelado ao pai). 

Em (2) o amor, o enfoque é nos relacionamentos que a autora teve. Além do erotismo, há elementos muito simples, como a sinestesia, a prosopopeia e o eufemismo. (3) a quebra é meio que uma continuação de (2) o amor, pois o que lemos é a consequência do que existiu anteriormente, mas trazendo tristeza, angústia e frustração. Nesta terceira parte, somos encaminhados para a ruptura dos amores construídos a partir de momentos muito únicos e, ao mesmo tempo, muito universais. Fala-se muito de abandono, de se estar perdida, de melancolia e de desamar a si mesma. 

(4) a cura é a minha parte preferida, há muito mais marcações minhas de poemas neste do que nos outros capítulos. Se até (3), os sentimentos eram de construção (primeiramente de algo bom e, depois, de muitas toxidades), em (4), os sentimentos são de coragem, de gratitude, de amor-próprio e de retomada de si mesma. Em (4) temos, realmente, a cura - conseguimos sentir toda a energia voltando a habitar as palavras e os sentidos. A reconstrução é palpável, de dentro para fora. É quase uma evolução que desemboca em sentimentos incríveis e brilhantes.



Eu sou suspeita para falar sobre o que mais amei neste livro. O que mais me marcou, com certeza, foi o aprendizado a se re-construir depois de muita dor e muito desamor. Como eu mesma passei por isso em 2016, parecia que eu estava me sentindo através das páginas - toda a cura que li, todos os poemas que grifei, todos os baques que senti eram eu. Ter conseguido me identificar em cada palavra foi uma das coisas mais especiais. 

Além disso, apesar de muita coisa ser sobre o amor romântico, você não precisa lê-lo com o propósito de encontrar alento para isso - há muitos outros tipos de amor nas entrelinhas. O amor-próprio é o mais evidente no final, depois do romântico. E o sentido de cura não precisa ser, necessariamente, de cunho inter-relacional, já que a cura pode servir apenas para nós mesmos, como uma espécie de "fazer as pazes" com nossa própria alma. 

Milk and Honey é de uma literatura intrinsecamente simplista, incrível e emocional. As ilustrações que acompanham muitos dos poemas casam perfeitamente com os sentidos e os elementos poéticos. Elas não têm a intenção de serem realistas, são semelhantes a rabiscos/rascunhos e, ainda assim, são lindíssimas. A simplicidade também está nelas, o que faz da obra um casamento entre palavras, sentidos e imagens. 

O miolo, assim como a grafia do título, é em caixa baixa. Eu sou uma leitora e escritora que sempre preza pela grafia e pela gramática, porque acho isso importante na literatura. Mas, neste livro, eu esqueci isso. Não que eu ache que, por ser poesia, precisa quebrar completamente com o padrão usual, mas acredito que a falta de pontuação e os versos corridos (sem o aparecimento de maiúsculas) deram outro tom ao livro. Fez dele algo bastante próximo, mais intimista e marcante. 

Por ser uma edição americana, há a ausência de orelhas, mas não me incomodou. Assim como a capa negra, a dedicatória e os anunciamentos dos capítulos também têm fundo negro. Parece algo monocromático e "chato", mas, na verdade, ao olhar é muito impactante, pois o contraste das páginas amareladas dos poemas são quase que o oposto das "marcações" em páginas negras. 

E o que falar da capa? Uma das minhas preferidas. Aliás, eu decidi não comprar a versão nacional (já lançada pela Planeta de Livros), porque achei o design completamente sem correlação com a original (apesar de se correlacionar com as ilustrações internas). Ah, acabei não gostando do título brasileiro, também. 

Não poderia amar mais Milk and Honey. Foi interessante, aliás, notar que toda a expectativa que estava nutrindo ao longo de todos esses meses de espera foi atingida e mais: superada de forma graciosa. Gratidão é a palavra que uso por ter tido a sorte de ler este livro e por tê-lo na estante. Não pense que vou conseguir me desgarrar dele tão cedo (haha).










Rupi Kaur nasceu na Índia, mas aos quatro anos se mudou para o Canadá. Ela se iniciou na poesia a partir do Instagram e do Tumblr. Sua visibilidade cresceu quando, em 2015,  fez um ensaio chamado "Period" no Instagram e teve as fotos apagadas. É adepta do feminismo (sua literatura já deixa isso bastante óbvio). 


Love, Nina :)